Há ameaças piores do que o antraz

Uma agência de correio da região parisiense, em Sarcelles, foi fechada com urgência. Motivo: foi descoberta, na sala de triagem, uma carta com o seguinte endereço: Osama bin Laden. Guerreiro afegão. 92500. Sarcelles. No canto esquerdo do envelope estava escrito: ?Armadilha?. Foram realizados testes bacteriológicos. Os resultados foram negativos, é claro. Histórias como essa acontecem no mundo inteiro, há dois dias, da Austrália à Áustria, passando pelo México e pelo Brasil. Sempre (exceto nos Estados Unidos) alertas falsos. Alertas devidos a Bin Laden, a um outro terrorista ou a imbecis? De qualquer maneira, o mal já foi feito: o terror psicológico está aí, mesmo que o terror biológico não o acompanhe todas as vezes. Na França, nada de pânico. Nada de corrida atrás de antibióticos nas farmácias. E sim angústia. Os especialistas tranqüilizam. O ministro da Saúde, dr.Bernard Kouchner, liberou 400 milhões de francos para um plano ?biotóxico?. O país dispõe de um estoque de 5 milhões de vacinas contra varíola e vai fabricar mais 3 milhões. O que surpreende é que o antraz seja espalhado (por quem?) de forma artesanal e não espargido por aviões piratas, como se tinha imaginado. Outra surpresa: que o terror tenha escolhido o antraz, sem dúvida perigoso, mas pouco contagioso quando existem outros agentes patogênicos bem mais diabólicos. Entre esses outros, cita-se o da peste, o do cólera, o da varíola, o da lepra. O agente da peste está entre os piores, devido à sua terrível força e também às cicatrizes purulentas que ela deixou na memória coletiva. Em três epidemias, a peste matou 200 milhões de pessoas na Europa. A Grande Peste, que irrompeu em 1348, eliminou, em dois anos, um terço, ou talvez a metade da Europa. Todas as pinturas da época nos deixaram as imagens daquela Europa alucinada e fúnebre: pilhas de corpos nus decompostos nos ossuários e sobre os quais outros corpos ainda se arrastam, danças macabras, e todos os trompetes do Juízo Final que ressoam no céu... Como se livraram dela? Em 1380, foram tomadas medidas terríveis: fecharam as cidades; mataram os que sujaram os poços. Aprisionaram em suas casas aqueles que tinham sido tocados por algum doente, multiplicaram-se as ?quarentenas? na terra e no mar. Mas a peste ainda provocou sobressaltos (a peste brutal, em 1772, inspirou a obra-prima de Defoe: ?A Journal of the Plague Year?). No imaginário mórbido, um outro vírus substituiu o da peste e suscitou um horror igual: o da varíola. Mas, após a II Guerra Mundial, uma campanha de vacinação universal de 300 milhões de dólares erradicou totalmente a calamidade. Na década de 1980, muitos países, entre eles a França, abandonaram a vacinação obrigatória, mesmo que as crianças não tenham proteção particular. Muitos pensam que essa medida foi uma loucura. Sobretudo porque há estoques do vírus. Sem dúvida, teoricamente, todas as cepas desses microrganismos são conservadas em dois laboratórios, um na ex-União Soviética e outro nos Estados Unidos. Mas, existe uma convicção de que após a explosão da União Soviética, algumas cepas foram levadas para outros lugares, ao Iraque, ao Israel e ao Irã. Ora, essa doença é amedrontadora: não se conhece nenhum verdadeiro tratamento. Ela matou cerca de 40% das pessoas contagiadas. Entre os sobreviventes, uma cegueira completa em 10% ou 15% dos casos. Esse é o motivo que leva a ser retomada a formação de estoques de vacinas e, talvez, a vacinação obrigatória, para evitar, em caso de loucura terrorista, um massacre, principalmente entre os mais jovens, que não estão imunizados. Lembremos, de passagem, que a varíola foi utilizada pelos ingleses para eliminar os índios da América do Norte. Esse é o quadro hoje. Calma, mas extrema tensão, extrema vigilância e determinação de medidas de urgência e, ao mesmo tempo, liberação de verbas. Infelizmente, a cada dia que passa a situação pode mudar totalmente: um único caso de varíola ou de peste poderá levar todas as populações ao pânico. Leia o especial

Agencia Estado,

15 Outubro 2001 | 19h07

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