''Há muitas 'Marias Antonietas' na África''

Segundo a ativista, os ditadores africanos estão surdos, não escutam a população, por isso as revoltas estão ocorrendo

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Wangari Maathai, primeira mulher africana a ganhar o Nobel da Paz

A África está descobrindo que está repleta de "Marias Antonietas". São ditadores surdos e distantes da realidade da população, assim como a rainha da França à época da revolução de 1789. A constatação é de Wangari Maathai, primeira mulher africana a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, em 2004.

Em entrevista ao Estado, a ativista e ambientalista queniana acusa ditadores de não entender que o movimento pela democracia no norte do continente se espalhará pelo restante da África. Ela alerta que aqueles que não quiserem enfrentar tribunais, devem iniciar reformas reais em seus países.

"A África ainda tem monarquias absolutistas. Os ditadores estão surdos e cairão justamente por isso", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista.

As revoluções no Norte da África estão causando um terremoto no mundo árabe. Elas terão o mesmo impacto ao sul do Saara?

Certamente. Quem não quiser enfrentar tribunais, terá de fazer reformas.

E essas reformas estão ocorrendo?

Esse é o problema. Descobrimos que estamos repletos de "Marias Antonietas". Quando o povo se queixa, esses líderes apenas dão respostas que ofendem a população. Que comam bolos se não têm pão. Os ditadores africanos estão fazendo o mesmo hoje. Os líderes estão surdos e não escutam a população. Por isso, as revoltas estão ocorrendo.

Essa surdez pode acabar causando novos conflitos?

Não há a necessidade de mais vítimas. Podemos ter as reformas sem novos banhos de sangue. Mas, para isso, as monarquias que ainda existem na África precisam acabar. A menos que um rei seja muito bom para seu povo, ele tende a transformar o Estado em sua propriedade privada. E é isso o que ocorre. Por isso, as revoltas têm sido tão violentas. São décadas não apenas de ditaduras, mas de pessoas que tomaram conta do Estado e transformaram a polícia em sua proteção pessoal contra o povo.

O que a população pede exatamente?

Governos responsáveis, impostos que não sejam desviados e a criação de serviços, como educação e saúde. Precisamos de novos líderes.

Um dos problemas do continente, de acordo com a própria ONU, é o alto grau de corrupção. A sra. trabalhou em ministérios no Quênia. Como é o tratamento dessa questão dentro dos governos africanos?

Se você denuncia ou não aceita participar de um esquema, você é transformado em vice-ministro, posto que não vale nada. Aí você não reclama mais.

A posição do Ocidente em relação à África é criticada pelo cinismo, já que vários ditadores foram mantidos por muito tempo com recursos americanos e europeus, principalmente durante a Guerra Fria. Como a sra. avalia isso?

De fato, vimos uma abertura dos regimes na África depois que o Muro de Berlim caiu. O Ocidente não precisava mais de aliados para frear o comunismo e, portanto, passaram a permitir uma maior abertura. Houve maior liberdade. O número de rádios e TVs explodiu. Antes, só o governo tinha esse controle sobre a informação. O espaço político foi ampliado e as Constituições mudaram. Mas o problema é que essa democratização está ocorrendo muito devagar e o povo não aguenta mais.

A União Africana, a Rússia e outros governos atacaram o Ocidente e a ONU pelas intervenções na Líbia e na Costa do Marfim. Qual a sua opinião?

É verdade que só a África pode ter a solução para a África. No entanto, precisamos de líderes que saibam nos proteger. E ainda estamos longe de chegar a esse ponto.

Há muita crítica no continente em relação ao Ocidente, mas um dos maiores parceiros da África hoje é a China. Entidades alertam que Pequim inaugurou uma nova fase da conquista da África. O continente voltou a ser explorado como ocorreu com o imperialismo ocidental?

A China está na África porque foi convidada. Nos explora porque nossos líderes permitem isto. O certo é que a China veio fazer negócios. Alguns acham que estão nos roubando. Mas nossos líderes permitem isso.

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