AP Photo/Vahid Salemi
AP Photo/Vahid Salemi

Artigo: Iranianos têm raiva tanto de seus líderes quanto dos EUA

A justaposição de demonstrações públicas de paixão, com menos de uma semana de diferença, destaca as tensões e fissuras no corpo político do país

Erin Cunningham / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 05h00

ISTAMBUL- Por um breve momento neste mês, os governantes do Irã pareciam animados pela onda de sentimentos nacionalistas que varreram o país após o assassinato do general Qassim Suleimani em ataque conduzido pelos EUA.

Agora, o apoio foi obscurecido pela raiva, à medida que a indignação pública aumenta com a derrubada acidental por Teerã de um avião civil na semana passada.

Depois de vários dias negando o fato, as forças armadas do Irã disseram no sábado que o avião - o Voo 752 da Ukraine International Airlines - foi abatido quando confundido com uma aeronave inimiga. Desde então, protestos esporádicos de críticas ao governo explodiram em Teerã e em outras cidades.

Na terça-feira, manifestantes da Universidade de Teerã entoaram slogans contra o governo enquanto as autoridades se esforçavam para encontrar uma maneira de conter a crescente agitação. O porta-voz do Sistema Judiciário do Irã anunciou a prisão de “alguns indivíduos” em conexão com a queda do avião, mas não deu detalhes sobre os detidos.

O presidente Hassan Rohani, relativamente moderado, veio a público instar o exército do Irã a “explicar ao público” por que demorou dias para revelar que o avião havia sido abatido. “É muito importante para o nosso povo que quem quer que seja a culpa em qualquer nível, seja apresentado e quem for punido, seja punido, disse Rohani.

Os meios estatais de comunicação do Irã disseram que o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, daria o passo excepcional de liderar as orações de sexta-feira em Teerã nesta semana, pela primeira vez em oito anos.

O esforço de altos funcionários para acalmar o público contrasta fortemente com o tom desafiador de Teerã em meio a uma manifestação de tristeza no início deste mês por Suleimani em uma procissão fúnebre, da qual participaram centenas de milhares de iranianos. A justaposição dessas demonstrações públicas de paixão, com menos de uma semana de diferença, destaca as tensões e fissuras no corpo político do Irã, uma nação de cerca de 80 milhões de pessoas.

O Irã é frequentemente apresentado “como um monólito... Um país onde todos os seus cidadãos se movem como um só”, disse Reza Akbari, pesquisador de política iraniana no Institute for War and Peace Reporting em Washington. "Mas os iranianos são capazes de condenar os ataques dos EUA contra sua soberania enquanto protestam contra grave negligência de seu governo”, continuou.

Para muitos iranianos, o assassinato de Suleimani em um ataque de drones dos EUA em Bagdá foi uma afronta nacional e ocorreu em meio a um grande ressentimento pelas duras sanções econômicas impostas ao Irã pelo governo Trump depois de retirar os Estados Unidos do acordo nuclear em 2018. O pranto e a raiva eram reais, mesmo quando alguns iranianos relataram que o governo havia trabalhado para incentivar as multidões.

Ao mesmo tempo, os protestos contra o avião derrubado, disse Akbari, alinham-se com as demandas de longo prazo da população iraniana por transparência, justiça e responsabilidade. Essas manifestações, juntamente com a instabilidade generalizada que tomou conta do Irã em novembro, refletem a frustração com o governo em muitos temas, incluindo corrupção, má administração econômica e repressão política.

"O Irã é uma sociedade diversificada e dinâmica... E o grande comparecimento em todo o país nas procissões fúnebres por Suleimani, bem como os protestos furiosos contra o regime por abater o voo na Ucrânia, são evidências dessa diversidade”, explicou Afshon Ostovar, professor assistente de assuntos de segurança nacional da Escola Naval de Pós-Graduação e autor de Vanguard of the Imam: Religion, Politics, and Iran’s Revolutionary Guards (Vanguarda do Imam: religião, política e a Guardas Revolucionária do Irã, na tradução livre).

Na semana passada, alguns iranianos que tradicionalmente apoiam o governo criticaram a condução do episódio, enquanto alguns cidadãos favoráveis a reformas marcharam nas procissões de Suleimani, que recebeu o crédito no Irã por ajudar a derrotar o Estado Islâmico.

 “Algumas pessoas que compareceram ao funeral (de Suleimani) também protestaram contra o governo pela derrubada do avião”, disse Zahra, de 33 anos, moradora de Teerã. Ela falou sob a condição de anonimato para poder discutir livremente a dinâmica política no Irã.

Zahra disse que o assassinato de Suleimani, chefe da força Quds de elite, provocou uma série de fortes emoções. “Algumas pessoas consideravam Suleimani um terrorista e outras um salvador do país”, ressaltou. “E alguns estão assustados com a possibilidade de guerra."

Em nota divulgada nesta semana, estudantes da Universidade Amirkabir, em Teerã, local de recentes protestos, demonstraram consternação por ficarem presos entre a beligerância do exterior e as dificuldades internas.

"Enquanto as políticas econômicas do governo e a repressão política levaram o povo à exasperação, a sombra da guerra também pairou acima de nossas cabeças”, informou o comunicado. “No meio de constantes ameaças das potências militares, hoje o que falta no clima político do Irã é a voz do povo... O povo exige liberdade e igualdade.”

Nos últimos anos, a economia do Irã sofreu devido à escalada das sanções dos EUA, e a expectativa é de contração de 8,7% este ano, segundo o Banco Mundial.

Em novembro, manifestantes realizaram protestos em todo o país sobre os cortes para subsídios a combustíveis. Eles receberam uma rápida e brutal repressão das forças de segurança, que grupos de direitos humanos dizem ter matado pelo menos 200 manifestantes. Essa agitação eclodiu principalmente nas áreas da classe trabalhadora das cidades iranianas, disseram observadores.

Os protestos desta semana se concentraram nas universidades e parecem incluir membros da classe média. "As queixas que têm motivado esses protestos ainda estão lá", reforçou Ali Fathollah-Nejad, um pesquisador visitante do Centro Brookings Doha.

A retomada dos protestos antigovernamentais, disse Ostovar, demonstram que as pessoas continuam “cansadas dos disparates do regime”.

“Eles entendem que não deveriam estar em guerra com os Estados Unidos, em primeiro lugar, e que as políticas nos interesses do regime levaram a nação a esse ponto”, afirmou. “O regime queria um momento de orgulho nacional e, em vez disso, ficou com vergonha nacional."

Na terça-feira, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, o ramo armado que abateu o avião ucraniano, disse ter prendido a pessoa que gravou o vídeo do míssil terra-ar atingindo o Boeing 737-800 sobre Teerã, pouco depois que o avião decolou do Aeroporto Internacional Imam Khomeini na quarta-feira.

Mas mesmo que alguns na Guarda Revolucionária tentassem limitar o escrutínio de seu catastrófico fracasso, outros aliados tradicionais eram mais críticos. O editor-chefe da agência de notícias Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, considerou um "erro imperdoável" a decisão de ocultar do público a causa da queda do avião. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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