Há o risco de o Taleban chegar à bomba

Quando os presidentes do Afeganistão, Hamid Karzai, e do Paquistão, Asif Ali Zardari, se reuniram com o americano Barack Obama para discutir como sufocar a ameaça do Taleban e da Al-Qaeda, uma sombra pairava sobre o encontro: o perigo desses grupos extremistas islâmicos terem acesso a instalações nucleares paquistanesas. O sucesso ou o fracasso da operação anti-Taleban, em curso no Paquistão, pode ser o primeiro indicador de qual será o risco de que isso ocorra no futuro.Para garantir o controle dessa tecnologia, não basta trancar em lugar seguro as 80 bombas nucleares do Paquistão. Uma variedade mais ampla de dispositivos está em risco. E os extremistas têm muitas opções para tentar acessá-los. O complexo de produção de armas atômicas do Paquistão estende-se por dez instalações. Muitas processam os materiais necessários para a fabricação de bombas - urânio e plutônio enriquecidos - e se a Al-Qaeda e o Taleban adquirissem tais materiais, poderiam montar armas nucleares.O urânio enriquecido pode ser transformado num explosivo com um design simples e os extremistas não teriam dificuldade em fabricar uma bomba se tivessem ajuda de paquistaneses ou conseguissem uma cópia do projeto vendido para a Líbia (e provavelmente para o Irã) pela rede de contrabando de tecnologia nuclear do cientista paquistanês Qadeer Khan. O plutônio apresenta um risco adicional. Embora seja mais difícil fabricar explosivos com ele, esse material é mais radioativo e pode ser usado em uma "bomba suja" - dispositivo que contamina o local onde foi detonado com uma partícula altamente cancerígena.Imagens de satélite revelam que um reator de produção de plutônio está localizado numa grande cidade paquistanesa. O Taleban ou a Al-Qaeda, numa tentativa de desestabilizar o governo do país, poderiam atacá-lo. As usinas, instalações para o processamento de plutônio, depósitos de lixo radioativo e vias de transporte de materiais nucleares também são alvos em potencial.E esses ataques não são improváveis. Em agosto, dois homens-bomba mataram 70 pessoas nos portos de uma fábrica de armas convencionais em Wash - onde se acredita que sejam armazenadas armas nucleares.As armas paquistanesas estariam guardadas em bunkers fortificados, com seus núcleos atômicos separados dos componentes não nucleares. Mas há cenários em que as medidas de segurança seriam insuficientes. O primeiro é se pessoas ligadas ao programa nuclear colaborarem com os extremistas.As autoridades paquistanesas afirmam ter eliminado das forças de proteção desse programa elementos pró-islâmicos, mas o crescimento do radicalismo religioso no Paquistão deixa dúvidas sobre a eficácia dessas medidas.O segundo cenário diz respeito ao avanço da insurgência islâmica. O Exército paquistanês vem combatendo o Taleban no Vale do Swat com dificuldade. Se o Taleban conseguir derrotar o governo na região se sentirá encorajado a avançar para áreas próximas à capital e às instalações nucleares. E é difícil prever se as forças oficiais se sairão melhor nessas regiões.Mais preocupante do que a perda de instalações nucleares individuais é a possibilidade de que os ganhos militares do Taleban e da Al-Qaeda lhes permitam derrubar o governo civil do Paquistão. Para muitos observadores isso é improvável. Mas um governo central fraco pode levar o país a uma fragmentação étnica e regional - e, com isso, a um controle incerto ou dividido de seu programa nuclear. A intervenção do Exército é outro cenário possível. Mas mesmo essa instituição historicamente forte pode estar fraturada, com alguns oficiais e agentes de inteligência com uma posição antiocidental e pró-Taleban. Se essa facção tomasse o poder, o Paquistão deixaria de ser um Estado nuclear, mas amigo, para tornar-se uma nação inimiga.Obama está lutando para encontrar uma solução para esses desafios. Seu primeiro objetivo - e tema central das conversações com Karzai e Zardari - é unir esforços para derrotar o Taleban e a Al-Qaeda. O aumento da ofensiva americana no Afeganistão e da paquistanesa no Vale do Swat são iniciativas promissoras, apesar de seu resultado ser incerto.O segundo ponto da estratégia dos EUA é a promessa de financiar projetos de infraestrutura e uma reforma educacional no Paquistão, numa tentativa de refutar a ideologia antiocidental difundida pelos islâmicos. Infelizmente, isso pode levar uma década ou mais para produzir resultados.Os EUA também têm apoiado os esforços para melhorar a segurança das instalações nucleares paquistanesas. Mas a demanda por segurança aumenta conforme o Paquistão expande sua capacidade nuclear. Além disso, todos os esforços feitos até agora podem ter sido em vão se houver um avanço considerável dos insurgentes ou um colapso político em Islamabad.*Leonard Spector é diretor Adjunto do James Martin Center for Nonproliferation Studies do Monterey Institute

Leonard S. Spector*, YALE GLOBAL, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2009 | 00h00

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