Miraflores Palace/Handout / REUTERS
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‘Há pressão para a população não votar contra chavismo’

diretora para as Américas da Anistia Internacional diz haver risco de uma crise humanitária em larga escala na Venezuela

Entrevista com

Erika Guevara, diretora para as Américas da Anistia Internacional

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2017 | 05h00

Com a popularidade em baixa e diante de uma escassez preocupante de remédios e alimentos, o chavismo recorre ao cadastramento de eleitores para distribuição de comida como meio de pressão eleitoral, denunciam opositores e ONGs de direitos humanos. Ao Estado, a diretora para as Américas da Anistia Internacional, Erika Guevara, disse haver risco de uma crise humanitária em larga escala no país. A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone. 

O governo venezuelano tem se negado a receber ajuda humanitária de outros países. Como vocês veem essa questão?

A maior parte da população sofre com essa escassez de remédios e de alimentos, principalmente os mais vulneráveis. Investigações em hospitais mostram que a falta de remédios está levando a uma crise humanitária de grande envergadura. Os principais hospitais de Caracas estão quase em operação de guerra. E o presidente Maduro simplesmente nega a existência da crise e a possibilidade de receber ajuda.

O que está por trás da decisão do governo de vincular a doação de cestas básicas e vacinas às Clap (documento eletrônico que registra dados domiciliares e eleitorais)?

O governo tem concentrado as doações por meio das Clap e, durante as eleições, quem se manifesta contra o governo não recebe alimentos. É uma maneira de pressão para que não se vote contra o chavismo

Há indícios de violação de direitos humanos na Venezuela, principalmente na repressão aos protestos contra o governo do presidente Maduro?

Há diversos testemunhos e provas documentais de violações de direitos humanos. A Anistia Internacional documentou violações graves nessa onda de repressão como resposta do Estado às manifestações dos últimos meses. Situações graves deveriam ser sujeitas à análise de uma comissão internacional.

Quanto à questão dos refugiados que deixam a Venezuela rumo ao Brasil e à Colômbia, o que mais preocupa?

Estamos investigando a situação do êxodo venezuelano pelo continente. O que sabemos, por meio da Acnur, é que há mais de 80 mil pessoas saindo da Venezuela por ano sem acesso a direitos básicos. Na Colômbia, há 300 mil venezuelanos que ali chegaram nos últimos meses. 

E qual o nível de interlocução as ONGs de direitos humanos têm com o governo venezuelano?

Bem, é uma relação complexa, pelo menos a nossa. Há um certo nível de diálogo, principalmente com o Ministério Público da procuradora-geral Luisa Ortega Díaz. No entanto, também sempre tivemos um bom contato com a Defensoria do Povo, que era dirigida pelo novo procurador-geral, William Saab.

Como vocês agem em relação aos presos políticos ?

Lamentavelmente, nos últimos anos tem havido um cerceamento dos direitos - não só políticos – mas também econômicos e sociais na Venezuela. As detenções políticas arbitrárias têm um padrão preocupante. É uma perseguição desmedida, marcada pelo uso de tribunais militares para julgar civis. Isso preocupa muito, porque é uma ferramenta do governo Maduro para silenciar a oposição a seu governo.

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