'Há provas de que o ataque partiu do regime'

Líder opositor pede que a equipe de investigadores da ONU vá até Damasco investigar a ação que deixou 1,3 mil mortos

Entrevista com

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2013 | 02h08

A acusação feita pelos rebeldes sírios de que o regime do presidente Bashar Assad lançou um ataque usando armas químicas contra a população da periferia de Damasco voltou a levantar a questão de uma intervenção internacional no país, em guerra civil há quase dois anos e meio. Em reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a Rússia - um dos principais aliados do governo sírio - afirmou que o ataque poderia ter partido dos rebeldes, mas, um dia depois, mudou de atitude e pediu uma "investigação objetiva" no local.

O opositor sírio e integrante do Comitê de Liberdade de Imprensa da Associação de Jornalistas da Síria, Massoud Akko, nega a possibilidade de o ataque ter partido da oposição e afirma ser possível provar sua autoria pelo regime. "A área onde ocorreu o ataque é controlada pelo Exército Sírio Livre. Por que os rebeldes fariam isso contra civis de suas famílias e não contra forças militares do regime?"

Em entrevista ao Estado, Akko - que fugiu da Síria em 2010 após ser perseguido pelo regime de Assad - afirma que conversou com sobreviventes do ataque e pede que a equipe de investigadores da ONU vá até Damasco averiguar a ação que, segundo os opositores, deixou 1,3 mil mortos. A seguir, trechos da entrevista.

Como é possível afirmar que o ataque partiu do governo?

O ataque de ontem foi o pior desde o início do conflito, com a morte de muitas crianças. Não há palavras para descrever o que pode acontecer na Síria se houver outro massacre assim e existem diversas provas de que o regime de Assad foi o responsável. Primeiro de tudo, é sabido que o regime sírio possui um arsenal de armas químicas e, por outro lado, não há nenhuma prova de que o Exército Sírio Livre tenha esse armamento, nem mesmo a Rússia prova isso. Outro ponto é que a maior parte das vítimas era formada por mulheres e crianças.

E como isso torna o ataque responsabilidade do governo?

A área onde ocorreu o ataque é controlada pelo Exército Sírio Livre. Por que os rebeldes fariam isso contra civis de suas famílias, contra a área onde detêm o domínio e não contra forças militares do regime? Tive acesso a vídeos e nenhum mostra militares mortos do massacre. Essa é uma grande prova da autoria do ataque pelo regime.

Como é possível averiguar de onde partiu o ataque?

Existe uma equipe de investigadores da ONU na Síria. Eles podem ir até lá (ao local do ataque). Se o regime foi o autor do massacre, eles (investigadores) poderão provar. Se foram os rebeldes, também. Se o regime não tem medo, que permita a ida da equipe.

O senhor acredita em uma mudança na posição da comunidade internacional após esse ataque?

Países da ONU se reuniram e estão discutindo a existência de provas do ataque, mas eles não precisam de provas para agir. Um exemplo disso foi a intervenção francesa no Mali. Se eles quiserem, podem fazer alguma coisa, mas eles não querem, ficam discutindo posições políticas, como a da Rússia. Não acredito que vá ter algum movimento no sentido de interromper a crise na Síria. As vezes, penso que não há mais humanidade no mundo.

Mais conteúdo sobre:
Síria Massoud Akko armas químicas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.