MENAHEM KAHANA / AFP
MENAHEM KAHANA / AFP

Há quase 60 anos, Israel capturava na Argentina o 'homem da Solução Final'

Criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, que estava escondido na América Latina com uma identidade falsa, foi sequestrado por um comando do serviço secreto israelense após caçada que levou vários anos

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 09h28

PARIS - Em 11 de maio de 1960, o criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, que tinha se refugiado na Argentina com uma identidade falsa, foi sequestrado por um comando do serviço secreto israelense após uma caçada que levou vários anos. 

Dez dias depois, foi drogado e vestido com um uniforme da companhia aérea israelense El Al, e desta forma os agentes do Mossad (serviço secreto israelense) o esconderam em um avião que o levou para Israel.

Principal responsável pela implementação da "Solução Final", plano de extermínio dos judeus durante a 2ª Guerra, Eichmann foi julgado e em seguida enforcado em 1962. Ele tinha 56 anos.

Confira a seguir, com base em material da agência de notícias AFP da época, a história desta operação ultrassecreta, cujos detalhes só vieram à tona com o passar dos anos.

"Um criminoso de guerra detido por israelenses"

Forças de segurança "detiveram um dos maiores criminosos de guerra nazistas" e ele será julgado em breve por um tribunal israelense, anunciou o então primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, em 23 de maio de 1960.

Com manchetes como "O homem da Solução Final (...) está atrás das grades" ou "Um criminoso de guerra detido pelos israelenses", a imprensa saudou a ofensiva israelense.

O nome de Eichmann surgiu nos julgamentos de Nuremberg (1945-1946), quando foi exposto seu papel na deportação dos judeus para os campos de extermínio no leste europeu. "Um alemão matando um judeu seis milhões de vezes", resumiu o escritor Elie Wiesel, sobrevivente de Auschwitz.

O ex-chefe da seção IV B.4 da Gestapo, responsável pela "questão judaica", desapareceu após a queda do Terceiro Reich, não sem ter o cuidado de destruir os relatórios sobre suas atividades sinistras, assim como fotos que permitissem sua identificação.

A pista argentina

A caçada começou em 1945, lançada por membros da comunidade judaica, em particular Simon Wiesenthal, o famoso "caçador de nazistas" e ele mesmo sobrevivente de um campo de concentração.

Mas foi em 1957, graças ao procurador do estado alemão em Hesse, Fritz Bauer, que os serviços israelenses souberam que Eichmann se escondia na Argentina com o nome de Ricardo Klement.

Foi preciso mais dois anos de investigações para localizar sua residência, sem água corrente, nem eletricidade, situada no distrito de San Fernando, arredores de Buenos Aires.

Em março de 1960, agentes israelenses, em posse de fotos de Eichmann, tiveram certeza de que Ricardo Klement era de fato o homem que procuravam. Um dia, durante uma perseguição, o agente do Mossad Tzvi Aharoni chegou a ficar sentado em um ônibus logo atrás dele.

"A tentação de me inclinar para frente e estrangulá-lo era praticamente irresistível (...), mas sabia que deveria ser julgado e não assassinado pelos que matou", disse anos mais tarde Aharoni à AFP.

Retirada do país

Com a autorização de Ben Gurion, a operação é orquestrada meticulosamente pelo então chefe do Mossad, Isser Harel, e implementada por Rafi Eitan.

"Quando me encarregaram desta missão, sabia que se tivéssemos sucesso, entraríamos para a História de Israel e da humanidade", disse.

A captura foi programada para 11 de maio. Gerente de seção em uma fábrica da Mercedes-Benz, o ex-coronel nazista voltava todas as tardes para sua casa na Rua Garibaldi pelo mesmo caminho e na mesma hora.

Pouco após as 20h05, Eichmann foi interceptado quando desembarcou do ônibus. Tentou resistir, gritou por socorro, mas foi levado para um automóvel e escondido debaixo de um cobertor.

"Tudo pareceu durar um século", disse Aharoni. No veículo, Eichmann disse em alemão aos seus captores: "Já aceitei meu destino".

Depois foi levado para uma casa alugada, onde foi acorrentado a uma cama e teve os olhos vendados. "Revisei suas cicatrizes. Quando tive certeza de que era ele, apertei a mão do meu colega e lhe disse que tínhamos cumprido nossa missão", disse Eitan à AFP.

Em 20 de maio, a equipe do Mossad o transportou com um passaporte israelense falso a bordo de um avião especial da delegação de Israel que assistiu às cerimônias por ocasião dos 150 anos da independência da Argentina.

"A banalidade do mal"

Em 11 de abril de 1961, Eichmann, que respondia a 15 acusações, apareceu pela primeira vez em público no tribunal de Jerusalém, que se propôs a escutar 111 testemunhas de acusação.

"Vestido com um terno preto, gravata escura, camisa branca e grandes óculos de tartaruga, o acusado, com a tez acinzentada, fronte calva, lábios apertados, entrou na caixa de vidro reservada para ele às 9 da manhã", relatou a AFP.

Para o escritor Haïm Gouri, o julgamento ofereceu "pela primeira vez aos sobreviventes do genocídio a oportunidade de serem escutados".

Uns 450 jornalistas estrangeiros e cerca de 100 observadores e diplomatas assistiram às audiências. Junto a Gouri, os escritores Wiesel, Joseph Kessel, Roger Vailland e Hannah Arendt fizeram a cobertura jornalística do julgamento.

Arendt publicaria em 1963 o livro que se tornará uma referência: Eichmann em Jerusalém, Um Ensaio sobre a Banalidade do Mal.

O auxiliar de Adolf Hitler foi condenado à morte em 15 de dezembro por crimes contra o povo judeu, a humanidade e crimes de guerra. Em 29 de maio de 1962, sua apelação foi desconsiderada pela Suprema Corte. Foi enforcado em 31 de maio à meia-noite. Suas cinzas foram espalhadas no mar, para além das águas territoriais israelenses. / AFP

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