EFE/Wu Hong
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‘Há risco de guerra comercial e conflito militar’

Para sinólogo, Xi Jinping e Trump são líderes nacionalistas que respondem a pressões protecionistas internas

Entrevista com

David Lampton, professor da Universidade Johns Hopkins

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

Com líderes nacionalistas na China e nos EUA, a relação entre as duas maiores economias do mundo entrou no período de maior incerteza dos últimos 40 anos. Há o risco de uma guerra comercial e de um conflito militar caso Donald Trump abandone o princípio de “uma só China”, avalia David Lampton, professor da Universidade Johns Hopkins e um dos mais respeitados estudiosos do país asiático e sua interação com Washington. A seguir, a entrevista. 

O que sr. espera da relação entre EUA e China sob Trump?

Estudo a relação EUA-China há mais de 40 anos e é o momento mais incerto que já vi. Temos líderes na China e nos EUA que gostariam de ter relações produtivas, mas são muito assertivos em promover os interesses de seus países, mesmo que isso signifique conflito. 

Tanto Xi Jinping quanto Donald Trump são nacionalistas?

Está se tornando quase um clichê dizer que o populismo e o nacionalismo estão se espalhando pelo mundo. Xi é a versão chinesa desse fenômeno, enquanto Trump é sua manifestação nos EUA. Se os dois países tiverem algo que se assemelhe a uma guerra comercial, isso terá consequências nefastas para a economia mundial. E ambos os lados têm pressões protecionistas às quais seus líderes estão respondendo. 

Trump questionou um dos pilares da relação bilateral, que é o princípio de ‘uma China’. Qual o impacto disso?

Qualquer um que questione a política de ‘uma China’ deve estar preparado para uma resposta forte. Se a política de ‘uma China’ for rejeitada pelos EUA, teremos elevado grau de fricção e potencial conflito. 

Conflito militar?

Sim. Se olharmos para 1995 e 1996, na última vez que um líder de Taiwan perseguiu uma política mais orientada à independência, Pequim disparou mísseis ao norte e ao sul da ilha e os EUA responderam com o envio de dois porta-aviões. A consequência foi a tremenda expansão dos gastos militares da China, para que o país nunca mais tivesse de recuar diante dos EUA em relação a Taiwan. Mas os chineses têm várias maneiras de pressionar Taiwan antes de usar a força. 

Durante a campanha, Trump atacou a China de maneira sistemática, dizendo que o país adota práticas desleais e explora os EUA. Ele estava certo?

Trump entendeu as frustrações que muitos americanos têm em relação à China. Eles querem mais reciprocidade e equidade. Empresas chinesas podem investir nos EUA e comprar empresas americanas, mas há setores inteiros da economia chinesa fechados para investimentos americanos. A China tem milhares de jornalistas aqui, com direito de fazer transmissões para dentro e fora dos Estados Unidos, mas repórteres dos três principais jornais americanos enfrentam dificuldades para entrar na China. Trump explorou isso de maneira correta. A questão é o que fazer. Impor tarifas de 45% seria uma catástrofe para os EUA, a China e o mundo. 

Estamos vendo uma inversão, com a China defendendo o sistema internacional e Trump questionando sua utilidade? 

A dúvida hoje é se os EUA mudarão sua atitude em relação a instituições criadas sob sua liderança. Podemos mencionar o Nafta, a Parceria Trans-Pacífico, o Acordo de Paris e a estrutura de alianças como a Otan e os tratados com o Japão e a Coreia do Sul. 

Trump diz que a China não faz o bastante para pressionar a Coreia do Norte a abandonar o programa nuclear. Ela pode fazer mais?

Sim, mas a questão é se os chineses acreditam que fazer mais atende a seus interesses. O primeiro objetivo da China é a estabilidade. Eles não querem a desintegração da Coreia do Norte, que levaria milhões de refugiados ao nordeste do país. A desnuclearização é o segundo objetivo de Pequim. Para os EUA, é a prioridade. O problema é que qualquer coisa que não provoque instabilidade não será suficiente para forçar os norte-coreanos a abandonar suas armas nucleares. 

Como o sr. interpreta a posição mais amigável de Trump em relação à Rússia?

Não sei como interpretar, mas ela é uma inversão do curso que levou à aproximação entre EUA e China no governo Richard Nixon. Naquele caso, os dois países se aproximaram para pressionar a União Soviética. Agora, os russos e os chineses se aproximaram em resposta à expansão da Otan e ao eixo para a Ásia adotado pelos Estados Unidos a partir de 2011. Ao se mover na direção da Rússia, o novo presidente pode estar tentando trazer a Rússia para perto e deixara a China em uma posição mais isolada.

 

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