'Há soluções pacíficas se os militares quiserem'

Irmandade Muçulmana não espera mais retorno de Morsi, mas negociará só se militares deixarem o poder, diz analista

Entrevista com

PARIS, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2013 | 02h10

Cientista político da Universidade Americana do Cairo (UAC), Emad Shahin é especialista em Irmandade Muçulmana, grupo islâmico que apoiava o governo de Mohamed Morsi. Shahin é um dos poucos intelectuais a qualificar a deposição como golpe militar. Falando ao Estado do Cairo, ele garante que há espaço para uma saída negociada.

Qual é o seu diagnóstico sobre a situação política do país?

Estamos vivendo claramente um golpe militar apoiado por protestos populares. A sociedade está dividida entre aqueles que defendem a restauração do processo democrático e temem o reinício de um governo militar e outros que defendem o governo militar e são contra o governo de Morsi e da Irmandade Muçulmana. A Constituição segue suspensa, uma Constituição aprovada por um terço da população. Em seu lugar está um governo com raízes militares. Até aqui, os militares conseguiram mobilizar as ruas, mas, diante dos massacres, não sabemos até quando.

O Exército fala em encerrar as manifestações à força. Até onde vai o impasse político no Egito?

Enquanto as mobilizações pró-democracia puderem crescer em apoio, haverá resistência aos militares. Houve uma iniciativa de políticos e acadêmicos para tentar encontrar uma solução política. Até aqui, cada lado tenta manter o máximo de exigências.

A Irmandade Muçulmana reitera que não negocia enquanto Morsi não retornar ao poder.

Mas todos sabemos que o retorno de Morsi é muito difícil, por várias razões. A primeira delas é que grande parte da sociedade e das instituições é contra seu governo, o que tornaria muito difícil para ele gerenciar o poder público.

O que propõem políticos e acadêmicos?

A questão é manter, nesse período, o máximo de elementos constitucionais que permitam ao presidente eleito, Morsi, delegar seus poderes a um primeiro-ministro independente. Esse premiê, então, governaria o país por um período transitório, supervisionando eleições parlamentares e presidenciais. Há soluções pacíficas se os militares quiserem, em lugar da violência contra civis.

Essa parece ser uma posição intermediária. O senhor tem resposta de parte da Irmandade Muçulmana e dos militares?

Ainda não estamos totalmente certos da posição dos dois grupos, mas é preciso sair do impasse atual. Creio que a Irmandade Muçulmana esteja aberta a negociações, mas, até aqui, os militares e o governo interino do Egito não parecem abertos.

A Irmandade Muçulmana promete não participar de futuras eleições sem o retorno de Morsi. Como resolver o impasse?

Mais uma vez, é a exigência máxima da Irmandade Muçulmana. No entanto, a participação da Irmandade Muçulmana depende da disposição do grupo hoje no poder de permitir a ampla participação de partidos políticos de origem religiosa no processo democrático. Estamos ainda longe de um acordo, mas qualquer negociação vai depender da capacidade das forças pró-democracia de manter a mobilização no Egito. / A.N.

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