Alexander Ermochenko/REUTERS
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Há três cenários para o fim da guerra na Ucrânia; leia o artigo de Thomas Friedman

A batalha pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde 1945

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 05h00

A batalha pela Ucrânia pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde a 2.ª Guerra e a confrontação mais perigosa para o mundo desde a Crise dos Mísseis em Cuba. Vejo três cenários possíveis para o fim desta história: um “desastre total”, “concessões sujas” e a “salvação”.

O cenário de desastre é o que se desenrola neste momento. A não ser que Vladimir Putin mude de ideia ou seja dissuadido, ele parece disposto a matar quantas pessoas for necessário, obliterar a Ucrânia enquanto Estado e cultura independentes e erradicar sua liderança. Esse cenário poderia ocasionar crimes de guerra numa escala não vista na Europa desde os nazistas – crimes que tornariam Putin, seus comparsas e a Rússia párias globais.

O mundo conectado e globalizado jamais teve de lidar com um líder acusado desse nível de crimes de guerra, cujo país detém um território que perpassa 11 fusos horários, é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural e possui um arsenal de ogivas nucleares maior do que qualquer outra nação.

A cada dia que Putin se recusa a parar nos aproximamos mais dos portões do inferno. A cada vídeo de TikTok e imagem de celular que exibe sua brutalidade, fica cada vez mais difícil para o mundo ignorar o que está acontecendo. Mas interferir arrisca detonar a primeira guerra na Europa envolvendo armas nucleares. E deixar Putin reduzir Kiev a cinzas – como ele fez com Alepo e Grozny – permitiria a ele criar um Afeganistão europeu, transbordando refugiados e caos.

Putin não tem capacidade de instaurar um fantoche na Ucrânia e deixá-lo por lá. Ele enfrentaria uma insurreição permanente. Então, a Rússia precisa estacionar milhares de soldados na Ucrânia para controlar o país – e os ucranianos vão atirar neles todos os dias. É assustador perceber o pouco que Putin pensou sobre como essa guerra vai acabar.

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Gostaria que Putin estivesse motivado apenas pelo desejo de manter a Ucrânia fora da Otan, mas seu apetite cresceu para muito além disso. Ele se aferrou ao pensamento mágico. Como disse Fiona Hill, uma das principais especialistas em Rússia dos EUA, ele crê em algo chamado “Mundo Russo”: acredita que ucranianos e russos sejam “um só povo” e considera sua missão arquitetar “o reagrupamento de todos os russófonos, de todos os lugares, que em algum ponto pertenceram ao império czarista”.

Para concretizar essa visão, Putin acredita que é seu direito e dever desafiar um sistema com base em regras, em que os objetivos não são alcançados pela força. E, se os EUA e seus aliados tentarem impedi-lo, ele sinaliza que está pronto para cometer mais loucuras do que todos nós.

Ou, como Putin alertou, antes de colocar suas forças nucleares em alerta máximo, qualquer um que impeça seu caminho deve estar pronto para enfrentar “consequências jamais vistas”. Adicionando a isso o crescente relato que coloca em dúvida a sanidade de Putin, temos um coquetel assustador.

O segundo cenário é que, de alguma maneira, os militares e o povo da Ucrânia sejam capazes de resistir à blitzkrieg – e as sanções econômicas comecem a afetar a economia de Putin, para que ambos os lados se sintam compelidos a aceitar concessões sujas.

Em troca de um cessar-fogo e da retirada das tropas russas, os enclaves no leste da Ucrânia, atualmente sob controle russo, poderiam ser cedidos formalmente à Rússia, enquanto a Ucrânia se comprometeria a jamais aderir à Otan. Ao mesmo tempo, os EUA e seus aliados concordariam em suspender todas as sanções impostas recentemente.

Esse cenário é improvável, porque requereria que Putin admitisse que foi incapaz de concretizar sua visão de reabsorção da Ucrânia, depois de pagar um enorme preço em sua economia e com as vidas de soldados russos. Além disso, a Ucrânia teria de ceder parte de seu território e aceitar a condição permanente de uma terra de ninguém entre a Rússia e a Europa – apesar de manter nominalmente sua independência. Isso também requereria que todos ignorassem a lição já aprendida de que Putin jamais deixará a Ucrânia em paz.

Finalmente, o cenário menos provável, mas o melhor desfecho: que o povo russo demonstre bravura e comprometimento com a própria liberdade e opere a salvação depondo Putin. Muitos russos devem estar começando a se preocupar com a possibilidade de que, enquanto Putin for seu líder, eles não terão futuro.

Milhares estão tomando as ruas para protestar contra a guerra, arriscando a própria segurança. E, apesar de ser cedo para afirmar, sua reação faz a gente imaginar que a barreira do medo pode estar sendo rompida, e um movimento de massa poderia acabar com o reinado de Putin. Mesmo para os russos que estão quietos, a vida foi subitamente perturbada.

E há ainda a nova “taxa Putin” que cada russo terá de pagar indefinidamente pelo prazer de tê-lo como presidente. Estou falando dos efeitos das sanções. Na segunda-feira, o Banco Central da Rússia teve de fechar o mercado de ações para evitar um derretimento e foi forçado a elevar sua taxa básica de juro de 9,5% para 20%, para estimular as pessoas a manterem seus rublos. Mesmo assim, o valor do rublo caiu 30% em relação ao dólar – 1 rublo vale agora menos de US$ 0,01.

Por todas essas razões, tenho esperança de que neste exato momento alguns comandantes militares e graduados oficiais de inteligência russos próximos a Putin estejam se reunindo a portas fechadas no Kremlin e expressando o que devem estar pensando. Ou Putin perdeu a mão enquanto estrategista durante seu isolamento na pandemia ou está em negação sobre quão erroneamente calculou a força dos ucranianos, dos EUA, de seus aliados e da sociedade civil global como um todo.

Se Putin levar adiante a destruição das maiores cidades da Ucrânia, ele e todos os seus comparsas nunca mais verão os apartamentos que compraram em Londres e Nova York com as riquezas que roubaram. Não haverá mais Davos nem St. Moritz. Em vez disso, eles ficarão trancados em sua grande prisão chamada Rússia – livres para viajar apenas para Síria, Crimeia, Belarus, Coreia do Norte e China, talvez. Seus filhos serão expulsos de internatos, da Suíça a Oxford.

Ou eles colaboram para depor Putin ou todos compartilharão a mesma cela. O mesmo vale para a população. Imagino que este último cenário seja o mais improvável de todos, mas é o que atende melhor à promessa de alcançar o sonho que sonhamos quando o Muro de Berlim caiu, em 1989 – de uma Europa livre, das ilhas britânicas a Vladivostok. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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