'Há um pano de fundo emocional nas manifestações'

Duas crises se encontraram nos recentes distúrbios detonados pelo filme Inocência dos Muçulmanos, opina o diretor do Departamento de Planejamento do Serviço Externo de Ação Europeu (EEAS), Walter Stevens.

Entrevista com

WILSON TOSTA , RIO, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h03

Uma é a onda de instabilidades nacionais do Oriente Médio, outra é a explosão internacional de ódio protagonizada por muçulmanos que se sentem ultrajados pelo vídeo que ridiculariza o profeta Maomé. Essa última, avalia o diplomata da União Europeia, tem um pano de fundo emocional, ainda que possa estar sendo usada politicamente por grupos radicais. O diplomata participou esta semana da 9ª Conferência do Forte de Copacabana sobre segurança internacional, no Rio de Janeiro. A seguir, leia trechos da entrevista.

Existem duas crises no mundo islâmico: crises nacionais, como a guerra na Síria, e uma crise internacional, causada pelo filme. Essas crises podem se encontrar e piorar?

Penso que essas crises se encontraram. A Primavera Árabe teve a ver, primeiramente, com o sentimento no mundo árabe de que (os árabes) não poderiam continuar vivendo daquela maneira e tinham de derrubar os regimes, por mais democracia, por mais liberdade. Tudo isso foi espalhado também pelo poder da tecnologia, da internet. Agora, de novo, com esse filme, temos a mesma coisa.

O filme provocou a crise ou foi apenas uma fagulha que detonou uma situação que já era latente?

Não acho que seja uma questão política, é mais uma questão de pano de fundo emocional. Aquelas pessoas acreditam, claro, sentem-se atacadas em sua fé. Mas violência é inaceitável.

Organizações islâmicas radicais estão usando o filme para fazer a sua política?

Talvez. Mas deploro a extrema violência. Pessoas estão sendo mortas.

Esta crise seria o outro lado da Primavera Árabe?

Não. A Primavera Árabe foi muito ligada às pessoas não querendo mais viver sob os regimes em que viviam e houve grandes esperanças em democracia, em liberdade, nos direitos das mulheres... Agora, há algo mais, há algo sentimental, emocional. Mas a disseminação da informação é feita pelos mesmos meios, internet, telefones e computadores.

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