LUIZ RAATZ/ESTADÃO
LUIZ RAATZ/ESTADÃO

‘Há um ressentimento social muito forte no Peru’

Vice-reitora de pesquisa da Universidade do Pacífico em Lima alerta para insatisfação com falta de acesso a direitos trabalhistas e sociais no país 

Entrevista com

Cinthia Sanborn

Luiz Raatz, Enviado Especial / Lima, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

Keiko Fujimori chega a sua segunda disputa pela presidência do Peru com a melhor chance em 16 anos de promover o retorno do fujimorismo ao poder. Vice-reitora de investigação da Universidade do Pacífico e uma das cientistas políticas mais conceituadas do Peru, Cinthia Sanborn avalia que, ganhe quem ganhe, o maior desafio do próximo presidente do país será impedir que a ascensão de uma nova classe média graças ao crescimento econômico com base na exportação de minerais seja anulado por um cenário de baixa no preço das matérias-primas aliado à ausência de proteção social e trabalhista no país. A seguir, a íntegra da entrevista:

- Como a senhora vê a possibilidade de regresso do fujimorismo ao poder no Peru?

Bom, há uma grande possibilidade. As pesquisas mostram que o resultado será muito apertado e se ele chegar à presidência terá a maioria de 2/3 do Congresso, um poder enorme, bem maior que os governos anteriores tiveram.

- No Peru de 26 anos atrás, os principais problemas do país eram a hiperinflação e o terrorismo do Sendero Luminoso. Hoje isso já não preocupa mais. O que mudou?

Do ponto de vista eleitoral há duas preocupações: crime e corrupção. Mas há um outro problema de matriz macroeconômica maior: a vulnerabilidade do país, que é dependente de exportações primárias, e o caráter informal do mercado de trabalho - a maior da região. Um retrocesso macroeconômico significaria que muita gente voltaria à pobreza.

- Os níveis de pobreza e outros indicadores sociais melhoraram neste período do boom das commodities. Agora isso mudou. Como manter essas conquistas então?

Esse é o problema. O Peru tem uma grande conquista, que é a estabilidade do modelo macroeconômico e o manejo responsável disso. Isso acontece muito porque os partidos políticos são fracos e cabe aos tecnocratas gerirem a economia. Mas o Peru não aproveitou a bonança para dinamizar a economia. E efetivamente a falta de demanda de commodities tem nos afetado. Como também o conflito social nesses setores: as questões socioambientais. Nestas eleições, o fato de no segundo turno estarem dois candidatos a favor do modelo econômico tem a ver com a exclusão de dois candidatos mais críticos a essa proposta no primeiro turno por razões questionáveis. E a terceira candidata era da esquerda ambientalista. Ou seja. Não há um consenso no país sobre para onde vamos. Qual quer um que ganhe, o desafio será proteger a população dos choques externos. Mais de 60% das empresas são informais e 79% dos trabalhadores também não são registrados. A pobreza no Peru caiu de mais de 50% a 23%, o que é uma conquista maravilhosa. Mas quem ascendeu à classe média pode voltar a pobreza rapidamente

- Por que não há regulamentação do mercado de trabalho?

É incrível. A maioria da população não tem seguro social, nem plano de saúde, contratos trabalhistas: é um país de quarto mundo nesse sentido. E você vê nas eleições que as pessoas estão fartas disso e se sentem excluídas. A sensação de desigualdade é muito grande. Muita gente vê muita riqueza no país, principalmente na mineração. Há um ressentimento social muito grande no Peru. Muito pelo tema racial. 24% das pessoas aqui se identificam como quéchua, num país onde o racismo é muito forte. Aí vem [Pedro Pablo] Kuczynski (PPK), branco, gringo e banqueiro e consegue disputar voto a voto com Keiko Fujimori, o que é notável. 

- Mas Keiko não é indígena...

Sim, mas como dizia o lema do pai: "um chinito com dos cholitos". Tampouco é da elite branca. Um de seu assessores investigados por corrupção diz que é perseguido porque é um cholo (indígena) com dinheiro e aqui quem não é branco e tem dinheiro é suspeito. É um discurso de vindicação dos mais pobres. E se você olhar, quem está a favor dela são os mais pobres.

- Isso que eu ia perguntar. Ela construiu um discurso populista, mas de direita, ao contrário de Equador, Bolívia, Venezuela...

Sim, veja, o fujimorismo é um movimento de direita muito conservador em questões morais e sociais, autoritário num sentido de como manter a ordem, apesar de serem liberais na economia. Isso não a impediria de manejar os recursos do Estado de uma maneira populista. Ela conseguiu formar uma aliança muito interessante com mineradores ilegais, que na realidade são atores políticos. Isso não é o liberalismo tradicional. Ela tem as bases para um governo de direita mais populista e, Deus não queira, autoritário.

- A questão do crime aqui incomoda muita gente. E ela maneja o tema de maneira similar à do pai em relação ao terrorismo. Por quê?

Sim, é um discurso de linha dura, mas qualquer especialista em segurança pública dirá que esse discurso carece de base. Humala também usou militares para a repressão de protestos, mas isso não funciona para a paz social. Fujimori se vangloria de pacificar o país, mas o que derrotou o terrorismo foi a inteligência, não a repressão. Não vejo Keiko com uma equipe capaz de fazer isso. Mas é um discurso de campanha muito efetivo. Ela dedicou os últimos cinco anos a organizar seu partido, o que é seu grande acerto. Mas uma coisa é fazer campanha outra é governar.

- Ela ao contrário do pai, que desprezava os partidos, construiu um novo partido em cinco anos. Como vês essa distinção.?

É a grande diferença entre os dois. Ela corrigiu isso. Nenhum dos outros partidos está com ela. 

- Essa estratégia dela lembra um pouco a de Chávez em 98, não?

É similar. A Venezuela era uma democracia com setores excluídos e pobres ressentidos. Ele trabalhou isso e derrubou a Quarta República. A nossa é mais instável. E ela tem muita gente do fujimorismo clássico, mas também muita gente nova. O partido dela é pequeno, mas muito mais engajado que os partidos antigos, como a Apra por exemplo

- E quanto a Kuczynski. Falta carisma a ele?

Ele tem virtudes. É muito capaz tecnicamente. Seria um grande ministro da economia ou presidente do BC. Tem uma carreira transparente. É um banqueiro, um senhor de direita liberal. Mas sempre transparente, honesto e comprometido com a democracia liberal. Além disso, tem em seu partido pessoas que lutam por direitos individuais, de mulheres e minorias. Mas tem carisma zero. Keiko não tem ideologia definida de maneira clara, mas é uma jovem muito carismática.As pessoas respondem com outro nível de entusiasmo. 

- Mas ele tem bastante apoio entre os jovens, não?

Sim, os jovens que não se lembram dos 80 e dos 90 formam grande parte do eleitorado. E não querem um governo corrupto. É como Bernie Sanders, pese que Bernie é de esquerda e PPK, de direita. O tema da corrupção para os jovens é muito importante.

- E o que há de diferente entre 2011 e 2016? 

Na última vez Keiko liderava e Humala acabou ganhando. Há semelhanças e diferenças. Em 2011, ela liderava e Humala surpreendeu. A imprensa tradicional estava com ela. A embaixada dos EUA, também. Todo establishment também, incluindo Kuczysnki, porque Humala representava a "ameaça chavista". Os setores mais progressistas apostaram nele, porque representava uma alternativa que muita gente ansiava. A mulher dele, Nadine, era muito carismática, e ele, como militar, inspirava segurança no tema do crime, por exemplo. Agora, a desilusão com eles é profunda. Ele não controlou o crime. Se supunha que era honesto e agora se sabe que não é bem assim. São vistos como traidores. Hoje, Kuczynski é mais fraco que Humala. É o candidato da elite limenha, não sai de San Isidro - Miraflores, não é um grande orador. Quem se desiludiu com Humala votará em Keiko. Ela é mais forte desta vez.

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