Há uma outra Itália, a que dá valor às mulheres

É formada por pessoas que estão enojadas e cansadas com o fato de moças inteligentes e trabalhadoras serem vistas pelos homens apenas como a imagem normal de fêmeas

CHIARA RUFFA & ROSA RAFFAELLI, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

A Itália é um lugar cheio de contradições. É um país com educação de qualidade, mas poucas oportunidades de carreira; com uma cultura e uma beleza extraordinárias, mas que protege precariamente seus tesouros artísticos e naturais.

Ela pertence ao Grupo dos 8 países mais industrializados, mas com respeito às mulheres, parece preso à Idade Média. A Itália sempre esteve na ponta inferior das estatísticas europeias relativas a emprego feminino (somente 46% das mulheres trabalham, em contraste com uma média de 59% no restante da União Europeia), salários das mulheres e número de mulheres em cargos influentes.

É um país onde cada cidadão é fortemente ligado a uma comunidade, mas é também abandonado à sua sorte por um sistema público desigual, distante e muitas vezes corrupto.

Nas últimas semanas, porém, a Itália presenciou debates e manifestações em massa que nos dão esperanças de que o país possa encontrar seu caminho para um futuro digno, mais equitativo, menos fragmentado. Isso se deve, em grande parte, à resposta das mulheres e homens italianos ao último dos muitos escândalos embaraçosos que revelaram uma sociedade em que as mulheres com muita frequência não são levadas a sério.

Os escândalos provocaram um debate mais amplo sobre o papel das mulheres na sociedade italiana. Esse debate remonta a outubro de 2009, quando durante um programa na televisão o primeiro-ministro Silvio Berlusconi disse a uma respeitadíssima política de 58 anos: "Você é incrivelmente mais bonita do que inteligente". Ela replicou: "Eu não sou uma das mulheres à sua disposição, primeiro-ministro". A verdade é que muitas mulheres italianas sentem que os homens - ou, ao menos, alguns homens - as olham como se fossem bens intercambiáveis a serem usados a seu bel prazer.

Mas na última semana milhares de mulheres e homens encheram as ruas para protestar contra essas afrontas à dignidade das mulheres.

Ocorreram manifestações em quase todas cidades italianas e também no exterior, e, até onde pudemos perceber, elas foram concorridas, pacíficas e sem conotações político-partidárias. Os organizadores pediram especificamente que os participantes não carregassem cartazes políticos, já que aquilo pretendia ser uma demonstração para todas as mulheres, independentemente de suas visões políticas. Muitas pessoas, contudo, viram os protestos - não sem razão - como uma manifestação política contra Berlusconi.

A nosso ver, os escândalos recentes envolvendo nosso primeiro-ministro são apenas a gota d"água, embora a taça venha se enchendo há muitos anos.

Durante décadas, as mulheres foram usadas nos programas de televisão italianos como corpos sem fala servindo para melhorar a audiência.

Basta ligar a televisão em qualquer canal e a qualquer momento para se observar isso. Os anúncios publicitários também fazem uso constante de corpos femininos para vender de tudo, de pneus a software antivírus, usando duplos sentidos sexuais, e, por vezes, slogans brutais.

Nós nos lembramos de observar chocadas certa vez, no Aeroporto Fiumicino, em Roma, um enorme anúncio de cruzeiros de férias mostrando seis mulheres nuas de costas e o slogan "Nós temos as melhores costas na Itália".

Muitos homens italianos olhariam essa imagem de mulheres como o papel normal de fêmeas. Virar uma corista, aliás, é uma ambição tentadora para muitas adolescentes - suas aparências são, geralmente, o único caminho para sucesso, riqueza e, às vezes, até uma carreira política. Quando mulheres são nomeadas para cargos políticos com base em seu portfólio de beleza, como ocorreu repetidas vezes, elas podem aprender a fazer um bom trabalho, mas jamais serão levadas a sério (como uma ministra de governo, inteligente e também bonita, que foi uma corista, descobriu recentemente).

No ano passado, em uma cerimônia para conferir o prestigioso prêmio literário Campiello, um conhecido jornalista, ao apresentar o prêmio, comentou o vestido curto da jovem e promissora vencedora e pediu que a câmera desse um zoom nele. No debate que se seguiu, muitos argumentaram que a mulher devia ter usado um vestido diferente se não queria ouvir comentários daquele tipo.

Todas nós sofremos, ou vimos amigas sofrerem, com uma forma ou outra de machismo: professores que não nos levam a sério, namorados que esperam que façamos papéis de donas de casa típicas e não estão dispostos a dividir tarefas, parentes nos lembrando de que, sendo mulheres, nós não deveríamos ser excessivamente ambiciosas - deveríamos nos casar com um homem mediano, assumir os afazeres do lar, criar seus filhos, cuidar de seus pais e encontrar um trabalho mediano para ajudar no orçamento familiar.

Se ousamos dizer que queremos lutar pelo emprego que sonhamos, que trabalhamos e estudamos duro para ter essa oportunidade, somos frequentemente rotuladas de "mulheres maravilhas" ou "carreiristas" insensíveis. Aliás, conhecemos muitas mulheres que estudaram duro, mas hoje apenas seguem seus namorados, tendo abandonado as próprias carreiras.

Conhecemos muitas moças que são bem mais inteligentes e trabalhadoras do que seus colegas homens, mas ainda sentem a necessidade de justificar o sucesso que alcançam. Evidentemente, isso não é um problema apenas italiano, mas nós viajamos por toda a Europa e jamais vimos anúncios tão chocantes quanto os da Itália, ou tantas mulheres seminuas em programas da tarde na televisão, ou mulheres julgadas mais por sua aparência do que pelo que seus cérebros e almas têm para oferecer.

Mas existe uma outra Itália. Ela é formada de mulheres e homens que estão enojados e cansados dessa visão estreita, que não percebem homens velhos que tiram vantagem de sua riqueza e poder para conseguir jovenzinhas como um modelo a seguir.

Conhecemos muitos homens que não pedem a suas parceiras para cuidar que sua massa seja cozida "al dente" quando voltam para casa depois do trabalho e muitos professores que valorizam a inteligência de suas alunas.

Esses homens cozinham e passam roupa, eles se orgulham do sucesso profissional de suas parceiras, eles desfrutam da beleza feminina, mas acham mais atraente quando isso não insulta a inteligência das mulheres. Esses homens também são capazes de respeitar a capacidade profissional de uma mulher, admirá-la por suas qualidades intelectuais e sugerir que ela deveria ser ambiciosa - tão ambiciosa quanto um homem e ainda mais se assim o desejar. Esses homens são nossos pais, nossos amigos, nossos colegas. Uma outra Itália é possível e ela parcialmente já existe. É hora de mudar. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

RUFFA É PESQUISADORA DO BELFER CENTER DA UNIVERSIDADE HARVARD RAFFAELLI É DOUTORA PELA UNIVERSIDADE SANT"ANNA DE ESTUDOS AVANÇADOS DE PISA

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