Habilidade de mudar o pensamento americano

Artigo

Jean Edward Smith*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

Em termos de conquistas legislativas, os primeiros cem dias de Barack Obama mal se comparam aos de Franklin D. Roosevelt. Roosevelt enfrentou circunstâncias cuja repetição é improvável. Um quarto do país estava desempregado, os preços das commodities haviam desmoronado, fábricas estavam ociosas e o sistema bancário oscilava à beira do abismo. E não havia nenhuma rede de segurança ou regulação. Metade das fazendas do país enfrentava execução hipotecária e 44% dos donos de casa não conseguiam pagar suas hipotecas. "Esta nação pede ação, e ação agora", disse Roosevelt. O Congresso respondeu com 15 medidas que puseram os EUA no caminho da recuperação. Nem o presidente Obama nem os demais sucessores de Roosevelt igualaram esse recorde. Nenhum enfrentou seus desafios. Sim, Obama enfrenta duas guerras de baixa intensidade - no Afeganistão e no Iraque - , recessão, desemprego crescente, uma indústria automotiva falida e problemas crônicos nas áreas de saúde, educação, energia e meio ambiente.Todos são graves e urgentes, mas não são comparáveis aos que Roosevelt enfrentou. A rede de segurança proporcionada pelo New Deal dá tempo para o governo agir deliberadamente. A forma de governar de Obama também é nitidamente diferente da de Roosevelt. Enquanto Obama é um jogador de equipe, sempre buscando o consenso, Roosevelt centralizava as decisões. Seus apoiadores eram tão numerosos que muitas vezes Roosevelt parecia um unificador, mas a verdade é que ele travava uma luta de classes incansável e prosperava sobre o aviltamento de seus inimigos. "Eles são unânimes em seu ódio a mim - e eu saúdo seu ódio", disse ele a uma multidão no Madison Square Garden em 1936. A semelhança entre Roosevelt e Obama é marcante na habilidade para mudar a mentalidade do país e promover um novo conjunto de pressupostos. Em 1933, Roosevelt tornou-se líder de uma nação que durante meio século acreditara que o melhor governo era o que governava menos. Obama herdou uma variante desse sentimento, popularizada por Barry Goldwater e Ronald Reagan, de que o governo é o problema, não a solução. Nos dois casos, tal ideia foi atropelada pelos fatos. O mesmo é verdade para as relações externas. Roosevelt enfrentou uma nação trancada num isolacionismo xenófobo. Obama enfrenta seu descendente direto, a doutrina da excepcionalidade americana. O isolacionismo dos anos 30 levou os EUA a ignorar a ameaça do imperialismo alemão e japonês e a fechar suas fronteiras à Europa. A excepcionalidade americana praticada por George W. Bush proporcionou uma licença para o unilateralismo, desconsideração de regras internacionais e rejeição dos cânones da diplomacia. Para converter a opinião pública, Roosevelt recorreu ao rádio. Obama usa mensagem de texto e a internet e tem sido ajudado por uma liderança republicana tecnologicamente inepta."Fiquei muito impressionado com a maneira como o senhor controlou a opinião pública permitindo que ela fosse à sua frente", escreveu o rei britânico George VI a Roosevelt em 1941. A julgar por seu histórico até agora, Obama parece ter decidido que o que funcionou para Roosevelt poderá funcionar para ele também. *Jean Edward Smith é professor de ciência política na Marshall University

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