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Meridith Kohut/NYT
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Habituado a crises, Maduro enfrenta o inimigo mais difícil

Pandemia e queda nos preços do petróleo fazem economistas calcularem uma queda de até 25% do PIB da Venezuela em 2020

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 04h00

CARACAS - Há apenas um mês, o presidente Nicolás Maduro parecia estar consolidando seu governo autocrático. A oposição se tornou irrelevante, a pressão internacional desapareceu e os devastadores problemas econômicos da Venezuela finalmente tinham abrandado, ainda que apenas um pouco. Então, a pandemia fechou o que restava de comércio e o colapso dos preços do petróleo acabou com o que sobrava dos receitas.

O presidente venezuelano, um político calejado e experiente, um verdadeiro sobrevivente, agora enfrenta uma das crises mais complexas de um governo que começou há sete anos e esteve carregado de graves problemas desde o início. “O regime está apenas sobrevivendo”, afirmou Michael Penfold, pesquisador do Wilson Center. “A Venezuela está entrando em um equilíbrio extremamente frágil que será cada vez mais difícil de manter.”

O que está em jogo são as vidas e o sustento de milhões de pessoas no país mais pobre da América do Sul, que enfrenta pelo sexto ano consecutivo uma calamidade econômica, um novo pico de hiperinflação e a ameaça letal do coronavírus. Maduro foi cercado por várias vezes, mas sempre conseguiu se adaptar às múltiplas rodadas de sanções americanas e vencer diversos desafios internos, de golpes frustrados a um ataque por drone.

No entanto, a última combinação de forças globais foi empurrando seu governo para um território desconhecido, expondo a exiguidade de seus recursos econômicos e os limites do apoio internacional.

A série de problemas de Maduro começou em 8 de março, quando Arábia Saudita e Rússia anularam um acordo de retenção de sua produção interna, desencadeando uma guerra de preços e mergulhando o setor global de energia em sua maior crise em várias décadas.

Em poucos dias, a extração de grande parte do petróleo bruto da Venezuela, seu principal produto de exportação, deixou de ser lucrativa, fazendo com que sua produção despencasse. A queda dos preços também contribuiu para desmontar um complexo sistema de intercâmbios que permitiu que o país trocasse petróleo bruto por combustível importado, driblando as sanções americanas.

Sem meios para importar ou produzir gasolina, a Venezuela chegou praticamente a um ponto morto. Os motoristas fazem filas de dias nos postos, até mesmo em Caracas, enquanto soldados armados guardam o escasso produto que agora é reservado às autoridades e aos trabalhadores de emergência.

Os motoristas furiosos brigam com os guardas e tentam derrubar os bloqueios em algumas cidades. Os produtores rurais, que não têm combustível para trabalhar nos campos, deixaram a safra apodrecer, enquanto metade dos venezuelanos não tem o suficiente para comer.

Praticamente da noite para o dia, a Venezuela passou dos preços mais baixos da gasolina ao mais alto – US$ 15 (R$ 77,50) o galão de 3,8 litros no florescente mercado ilegal, mais do que o dobro do salário mínimo mensal do país.

À escassez de combustível somou-se o agravamento das relações entre Maduro e sua antiga parceira principal em matéria de petróleo, a Rosneft, a companhia petrolífera russa estatal.

A decisão extemporânea de Maduro, em fevereiro, de rever os contratos com a Rosneft criou tensões no momento em que a companhia estava ressentida em razão de uma decisão dos EUA de sancionar duas de suas subsidiárias na Venezuela por apoiar o chavismo.

Consequentemente, a Rosneft declarou, no fim do mês que estava interrompendo suas operações na Venezuela e vendendo seu ativos no país para uma companhia que o governo russo controla integralmente.

A Rosneft trocava petróleo venezuelano com pequenas refinarias na China por gasolina e dinheiro. Embora, teoricamente, outra companhia russa possa fazer o mesmo, não poderá fazê-lo imediatamente na ausência dos sofisticados sistemas de troca da Rosneft – asfixiando, por enquanto, uma fonte de gasolina e de recursos para o governo Maduro.

Agora, resta ao presidente tentar obter gasolina de pessoas de confiança, que no passado ajudaram a abastecer o seu governo com produtos essenciais em momentos difíceis.

“Este mosaico proporcionará, quando muito, um alívio temporário às principais cidades da Venezuela, mas não contribuirá para sanar os problemas estruturais causadores da escassez”, afirmou Asdrúbal Oliveros, diretor da empresa de consultoria econômica Ecoanalítica, de Caracas. Oliveros prevê que, neste ano, a economia venezuelana encolherá 25%. Se isso acontecer, terá consequências devastadoras para um país que já registrou o maior declínio do PIB da história moderna em tempos de paz. / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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