Eduardo Muñoz/Reuters
Eduardo Muñoz/Reuters

Haiti começa hoje a escolher o herdeiro de um estado falido

Há 10 meses, tremor matou 30% dos funcionários públicos do país, que agora sofre com cólera, criminalidade e ataques a candidatos

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

O Palácio Nacional de Porto Príncipe, sede e símbolo da Presidência do Haiti, desmoronou no terremoto de janeiro. Na sua fachada, com a bandeira rubro-celeste em um gramado diante dos escombros, estão as fotos dos 19 candidatos presidenciais na eleição de hoje. O vencedor terá o direito de ocupar uma tenda montada ao lado das gigantescas ruínas, a tenda de onde René Préval tenta governar o país mais pobre das Américas.

Depois de décadas de ditaduras, seguidas por anos de instabilidade democrática, o Haiti viu tudo ruir mais uma vez quando as terras de Porto Príncipe tremeram dez meses atrás. O Estado ineficiente e corrupto foi substituído pelo que é chamado por especialistas em política internacional de Estado falido. Cerca de 30% dos funcionários públicos morreram no terremoto. Documentos se perderam nos escombros dos ministérios. A Câmara dos Deputados, que seria eleita no mês seguinte, não existe mais. Voltará a operar após a eleição.

O governo do Haiti não fornece educação e saúde. Faltam médicos e enfermeiras. Quem não tem dinheiro para pagar um dos liceus franceses, depende da boa vontade de entidades internacionais. Tampouco há transporte público. A locomoção se dá por meio de lotações apelidadas de "taptap", sem regulamentação. Os táxis não têm placa no teto. Podem ser qualquer carro que pare na rua. A polícia é alvo de piada. A segurança existe graças às Forças de Paz da ONU (Minustah), comandadas pelo Brasil. Com esforço, conseguiram controlar verdadeiras zonas de guerra, como Cité Soleil.

"Sempre quis votar para quem desse escolas para os meus filhos. O (ex-presidente jean-Bertrand) Aristide e o Préval prometeram, mas não cumpriram. Os candidatos de agora já estão prometendo, mas tenha certeza, não vão cumprir. Eu tive a oportunidade de estudar alguns anos em Nova York, quando meus pais saíram do Haiti. Mas eles acabaram voltando e não tenho cidadania americana. Apesar da minha educação, de falar inglês, estou desempregado desde o terremoto. Meu filho sequer terá a mesma chance. Desde o terremoto, ele não vai à escola, que caiu. Eu tento ensinar inglês para ele para, quem sabe, um dia ele ir para os EUA. Como eu arrumo um emprego na base brasileira? Tem de falar português?", disse Carlo Joseph, que passa os dias circulando pelo centro da cidade em busca de bicos.

Hoje, Porto Príncipe sequer tem uma orla onde as pessoas possam caminhar. É possível passar dias na capital haitiana sem ver o mar. Nem mesmo os ricos se interessam pelas águas poluídas do Golfo de Gonaïve. Os milionários migraram para as montanhas de Petionville, no alto do capital, onde construíram campos de golfe.

Nas eleições de hoje, os 4,7 milhões de eleitores haitianos terão a chance de escolher 11 dos 30 senadores, todos os 99 deputados e o presidente que substituirá Préval. Provavelmente haverá segundo turno em janeiro, aniversário do terremoto. Pela primeira vez na história do país, um presidente eleito democraticamente entregará a faixa para outro. No Haiti, 23 presidentes foram derrubados e 3 foram assassinados, sem falar em outros 8 que morreram no poder, incluindo um suicida.

O futuro presidente herdará, além do Estado falido, a tarefa de reconstruir o país do terremoto e lidar com a epidemia de cólera. Ao menos 1.400 pessoas já morreram. Cerca de 60 mil foram infectados.

Nos próximos meses, o número deve saltar para mais de 400 mil por causa da falta de higiene básica. Crianças banham-se em córregos sujos. Uma delas, questionada se não tinha medo de contrair a doença, riu como se fosse um exagero. "Não tenho como me prevenir da cólera. Você viu como são as barracas aqui. Não temos banheiros e cozinhas. Dá para conseguir água mineral, mas é impossível tomar um banho com água limpa. Acha que tem chuveiro para todos?", respondeu Jean Nistal, vendedor ambulante de refrigerantes.

Um enterro no Haiti custa caro (US$ 800, segundo militares brasileiros). E as pessoas morrem de cólera em casa. Sem saída, os familiares jogam os corpos no lixo ou em córregos. Segundo autoridades da Organização Mundial de Saúde, o Haiti é um dos países mais propícios para a proliferação de doenças. No médio prazo, o país precisará começar a lidar com a questão da segurança. Conforme disse o general Paul Cruz, comandante das Forças da ONU no país, "não dá para as tropas permanecerem para sempre no território haitiano".

Os principais concorrentes fazem campanha concentrados em defender educação e saúde para todos. Isso ocorre desde a redemocratização nos anos 90. As últimas pesquisas de intenção de voto mostram como favorita a ex-primeira-dama Mirlande Manigat, que na sexta-feira denunciou a existência de 500 cédulas eleitorais falsas. Outro forte concorrente é Jude Celestin, protegido do atual presidente. Préval mudou de candidato durante a campanha, retirando o apoio do ex-premiê Jacques-Edouard Alexis. A quarta força é o músico e animador Michel Martelly, que na noite de sexta-feira escapou ileso de um atentado no sul do Haiti. Martelly não tem experiência política, mas reúne multidões de jovens em comícios. "Sweet Micky", como é conhecido o cantor latino, fazia campanha em Cayes quando dispararam contra seu grupo. Segundo sua porta-voz, "uma pessoa morreu e várias ficaram feridas".

Apesar de o cenário de violência e miséria chocar quem vai pela primeira vez à capital do Haiti, a situação é bem melhor do que a dos dias posteriores ao terremoto. Verdade, quase nada foi reconstruído. Até mesmo o aeroporto funciona em um espaço provisório porque o salão principal teve áreas desmoronadas e outras trincadas. Mas a quantidade de entulho nas ruas diminuiu e as pessoas voltaram a circular.

Compulsão. A epidemia de cólera e o risco de malária transformaram a base militar brasileira em um espécie de redoma onde o objetivo é impedir de qualquer maneira a entrada destas doenças. As medidas de prevenção são uma obsessão. Para entrar na base militar, os pneus dos carros passam por uma limpeza. As pessoas precisam pisar numa espuma com cloro para desinfetar os calçados, tentando eliminar a possibilidade de que as pegadas tragam junto a cólera. É preciso lavar as mãos e, em seguida, aplicar álcool gel. Todos os residentes na base recebem a recomendação de trocar de roupa assim que chegam.

Por enquanto, ninguém contraiu cólera entre os militares brasileiros. Toda a comida e bebida consumida é preparada na base. A água para banho e a lavagem de mãos é tratada. Ninguém deve consumir comidas e bebidas fora das instalações militares. Mais complicado é impedir a entrada da malária. Não existem barreiras para os mosquitos e alguns militares já contraíram a doença. Todo início de manhã e fim de tarde, uma fumaça para matar mosquitos praticamente cria uma nuvem sobre a base militar em Porto Príncipe. O Exército distribui repelente para os militares passarem. Nas saídas para o trabalho de rua, os óculos escuros são obrigatórios durante o dia. Dois soldados contam que um militar teria perdido 80% da visão - recuperada depois de cirurgia - por uma poeira contaminada. Curiosamente, ninguém protege os olhos nas patrulhas noturnas.

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