Sophia Paris/Minustah
Sophia Paris/Minustah

Haiti desacelera epidemia da cólera

Mobilização internacional compensa precariedade do sistema de saúde local e 90% dos infectados atendidos recebem tratamento eficaz

Deborah Sontag THE NEW YORK TIME SAINT-MARC, HAITI, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

No pátio do Hospital Saint-Nicholas, atrás de um portão, há uma tabuleta que avisa: "Somente emergência de diarreia." A cena é sinistra, mas também inusitadamente organizada por estar no epicentro da epidemia de cólera que tomou o Haiti.

Dezenas de crianças e adultos, encolhidos ou deitados sobre qualquer superfície disponível, sofrem dilacerados pela violenta doença intestinal ou extremamente fracos por causa da desidratação. Ao seu lado há baldes, soluções intravenosas pingam dos suportes em seus braços. A vida está continuamente ameaçada, mas se pode perceber uma calma sóbria, quase misteriosa.

Martila Joseph destacava-se entre todos. Na segunda-feira, as lágrimas caíam do seu rosto enquanto ela embalava a filha em seu vestidinho rosa, excessivamente quieta em seus braços. "Não sei se minha filha sobreviverá", disse enquanto a mulher de outro paciente pedia para ela se calar: "Você conseguiu trazê-la para o hospital. Quer dizer que você a salvou."

Na realidade, o tratamento está salvando mais de 90% dos que chegam a uma clínica; por isso, autoridades da área de saúde se concentravam em aumentar o apoio aos hospitais locais, levantando centros de combate à cólera em toda a região de Artibonite.

"É virulenta, e pode se deslocar", explicou Nigel Fisher, coordenador da ajuda humanitária das Nações Unidas, na frente da tenda da enfermaria do hospital da comunidade em L"Estère. "Mas pelo menos aqui, conseguimos, caso após caso, estabilizar até certo ponto a situação."

Representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) disseram que é quase impossível prever a dinâmica do surto. Mas segunda-feira foi um dia relativamente bom: foram registradas apenas seis mortes pela doença em um período de 24 horas. Nos primeiros dias da epidemia, morreram mais de 200 pessoas de infecção bacteriana aguda . O número de mortes conhecidas é de 295, com mais de 3,6 mil casos, 450 somente na área de Artibonite.

Na entrada do hospital Saint-Nicholas, um alto-falante divulga sua mensagem num tom quase festivo: "Não há vida sem saúde e não há saúde sem higiene", discrepando de todo o resto.

Uma canaleta de água parada fétida recebe os visitantes do hospital, que agora precisam pisar num capacho embebido em cloro e lavar as mãos para entrar. Diariamente, o Saint-Nicholas cuida de cerca de 600 pacientes com sintomas de diarreia intensa e vômitos, e os Médicos Sem Fronteiras (MSF) da Espanha acompanham o enorme número de casos do hospital, administrado conjuntamente pelo governo haitiano e pela organização beneficente Parceiros na Saúde, com sede em Massachusetts.

Em todos os cantos do pátio e nas enfermarias que o cercam, os pacientes estão deitados em leitos, colchonetes ou no chão, enquanto funcionários espalham soluções de cloro ao redor. Os parentes - um por paciente - espantam as moscas, limpam a fronte dos doentes e procuram convencê-los a engolir soluções para a hidratação.

Médicos, enfermeiros e material médico estão chegando para ajudar o governo, que ainda sofre com as consequências do terremoto de janeiro deste ano, que deixou 230 mil mortos e 1 milhão de desabrigados. "Este é um exemplo de uma excelente operação", disse Fisher. "Eles cuidaram de 400 pacientes e houve 10 mortes", diz, apontando para um grupo de médicos cubanos.

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