REUTERS/Andres Martinez Casares
REUTERS/Andres Martinez Casares

Haiti elege neste domingo novo presidente após furacão

Em meio a dificuldades, haitianos voltam às urnas depois da anulação das eleições de 2015

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2016 | 17h33

PORTO PRÍNCIPE -  Os haitianos voltam hoje às urnas para escolher, entre 27 candidatos, seu próximo presidente. A eleição que já foi adiada quatro vezes, a última delas pela passagem do furacão Matthew em 4 de outubro, cinco dias antes da data prevista para a votação.

O Haiti vive um momento crucial com este pleito, convocado depois que o conselho invalidou os resultados das eleições de outubro de 2015 por supostas irregularidades. A votação será realizada em meio a uma grave crise humanitária, já que mais de 600 mil pessoas vivem nas áreas mais afetadas pelo furacão, onde haverá dificuldades para exercer o direito ao voto, pois, entre outras coisas, muitos dos 6 milhões de eleitores perderam os documentos durante a tempestade, que deixou pelo menos 573 mortos e 75 desaparecidos.

O Conselho Eleitoral Provisório (CEP) diz que, além da perda de documentos, muitos dos espaços que devem ser utilizados como centros de votação servem atualmente de albergues para dezenas de milhares de desabrigados.

Pesquisas apontam Jovenel Moise, do Partido Haitiano Tet Kale (PHTK), como o candidato favorito, seguido por Moise Jean-Charles, da Plataforma Pitit Dessalines e Jude Celestin, da Liga Alternativa pelo Progresso e Emancipação Haitiana (Lapeh). Em quarto lugar está Maryse Narcisse, candidata pela Família Lavalas, partido do ex-presidente Jean Bertrand Aristide.

São frequentes os confrontos entre partidários dos principais candidatos que, em algumas ocasiões, deixaram mortos e feridos. Se nenhum dos candidatos conseguir 50% mais um dos votos, os haitianos deverão voltar às urnas em 29 de janeiro.

O comerciante Jean-Paul Calixte disse à EFE, que "estas eleições não vão fornecer nada à população". "É uma batalha entre políticos e em interesse deles mesmos", acrescentou. Além disso, questionou o custo da campanha, cujas fontes de financiamento são um mistério, já que "ninguém sabe de onde vem este dinheiro; é muito suspeita a atuação de alguns candidatos", afirmou.

As críticas também acontecem em relação ao conteúdo da campanha que, segundo o economista Camille Charlmers, reproduz o mesmo plano há 30 anos; por isso "poucas pessoas se interessam em votar", disse à EFE.

"A campanha eleitoral não tem nada de diferente e novo, os candidatos fazem promessas e gastam dinheiro, mas no fundo não há um discurso que mostre que há esperança; todos apresentam o mesmo plano neoliberal que destrói a agricultura e a economia do país", afirmou.

Violência. As eleições gerais serão realizadas em meio a uma crescente situação de insegurança, um flagelo que castiga a população local há décadas apesar dos 12 anos de atuação da Missão da ONU para a Estabilização (Minustah).

O pleito foi antecedido de dezenas de assassinatos. Um deles foi o da freira espanhola Isabel Solá Matas, de 51 anos, que foi baleada por um grupo de desconhecidos em setembro, quando dirigia pela capital do país, Porto Príncipe. A morte da religiosa foi lamentada pelo próprio papa Francisco, que pediu para o fim dos atos de violência no Haiti e mais segurança para todos.

Dois meses antes, o escritor e editor Wilhems Edouard foi morto quando voltava de um banco em Petionville, no oeste da capital, outro homicídio que comoveu o país. Esses e outros assassinatos ainda não foram esclarecidos, enquanto a população observa como o problema da insegurança só é abordado nos discurso ou nos programas de governo dos candidatos.

De acordo com a Rede Nacional para a Defesa dos Direitos Humanos no Haiti (RNDDH), foram cometidos 1.324 assassinatos no país entre janeiro de 2015 e junho de 2016. Relatórios do órgão indicam que a insegurança segue piorando, com média de 70 mortes ao mês.

Para evitar qualquer eventualidade e como medida preventiva para o pleito, a Polícia Nacional e o Conselho Eleitoral Provisório, com o apoio da ONU, prepararam um plano de segurança que envolve cerca de 600 agentes e 2 mil boinas azuis da Minustah.

O Haiti segue dependendo da ONU para garantir a segurança do país mais de dez anos depois da chegada da Minustah. A missão foi estabelecida em junho de 2004 com soldados de mais de 20 países, grande parte deles do Brasil, três meses depois do golpe de Estado contra Jean-Bertrand Aristide, que se refugiou na África do Sul.

Com mais de 10 milhões de habitantes, o Haiti conta com uma Polícia Nacional formada por apenas 20 mil agentes. Por isso, o país segue dependendo da Minustah, mas a missão vem diminuindo ao longo dos anos. Para piorar, muitos países já anunciaram que seus soldados irão deixar o país no próximo ano, o que pode complicar a situação.

O Conselho de Segurança da ONU estendeu em outubro o mandato da missão dos boinas azuis até abril de 2017, motivado também pela tragédia provocada pela passagem do furacão Matthews no país.

Ciente da realidade vivida pela nação, o presidente interino do Haiti, Jocelerme Privert, se reuniu com a direção da Polícia Nacional e da Minustah para estabelecer as condições necessárias para o pleito, crucial para a frágil situação institucional do país.

"Para nós, a segurança é muito importante. A Polícia tem os elementos necessários para garantir a segurança das eleições com o apoio da missão da ONU", disse o presidente interno.

Privert, que assumiu o cargo em fevereiro após o término do mandato do então presidente, Michel Martelly, disse que o país tem uma "enorme responsabilidade de garantir que cada pessoa pode sair para votar sem medo e que todo o processo termine bem". "Pedimos que todos respeitem os princípios democráticos e a lei eleitoral para evitar problemas no processo", ressaltou Privert.

A habitual insegurança se somou à violência eleitoral. Por isso, os candidatos foram alertados sobre as consequências de envolvimento com esse tipo de crime.

"Queremos lembrar os partidos e candidatos que eles podem ser excluídos do processo se participarem de atos de violência. A lei eleitoral é muito clara sobre violência e segurança. Os candidatos têm que respeitar a lei eleitoral para garantir o desenvolvimento do processo. Vamos tomar medidas duras contra qualquer pessoa que não respeitar as ordens de segurança que estabelece a lei eleitoral", afirmou o CEP em comunicado. O CEP e a Polícia Nacional estão treinando milhares de jovens para ajudar a manter a segurança nos centros de votação durante o processo eleitoral. / EFE

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