EFE/ Jean Marc Herve Abelard
EFE/ Jean Marc Herve Abelard

Haiti em luto pelo assassinato do presidente Jovenel Moïse

Crime ameaça desestabilizar ainda mais o país mais pobre das Américas, já confrontado com uma dupla crise política e de segurança

Robenson Geffrard e Amélie Baron, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 10h02

PORTO PRÍNCIPE e PARIS - Quatro “mercenários” foram mortos pela polícia e dois outros foram presos no Haiti, nesta quinta-feira, 8, um dia após o assassinato do presidente Jovenel Moïse. O crime chocou o país mais pobre das Américas e ameaça desestabilizá-lo ainda mais.

O assassinato do presidente, que também surpreendeu a comunidade internacional, será discutido nesta quinta-feira, 8, numa reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que apelou para que os autores do assassinato “sejam rapidamente levados à justiça”.

Por enquanto, nenhuma informação foi divulgada sobre a identidade ou motivação dos criminosos.

A imprensa local, citando o juiz responsável pelo caso, disse que Moïse foi atingido por 12 tiros e que seu escritório e quarto foram saqueados.

Segundo o primeiro-ministro, Claude Joseph, os criminosos eram “estrangeiros que falavam inglês e espanhol”.

Ainda na data do crime, a polícia local disse ter perseguido supostos membros do bando e que as equipes ainda estavam “mobilizadas na batalha com os assassinos”.

“A partir desta noite, estaremos lutando contra eles”, disse na televisão o diretor-geral da polícia nacional do Haiti, Léon Charles.

“Quatro mercenários foram mortos, dois colocados sob o nosso controle. Três polícias que tinham sido feitos reféns foram liberados”, disse ele.

Primeira dama "fora de perigo" 

Claude Joseph tinha anunciado anteriormente num discurso em crioulo a decisão de “declarar estado de sítio em todo o país”, aumentando os poderes do Executivo durante 15 dias.

Apelando à população para se acalmar, prometeu que “os assassinos pagarão pelo que fizeram perante a justiça”.

O aeroporto de Porto Príncipe foi fechado e a República Dominicana fechou a sua fronteira com o país vizinho.

Além disso, foi proclamado um período de luto nacional de duas semanas, com início nesta quinta-feira, 8.

De acordo com o embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Bocchit Edmond, o comando era composto por “mercenários profissionais” que se fizeram passar por membros da agência antidroga dos Estados Unidos.

A esposa do presidente, Martine Moïse — que chegou a ser dada como morta —, foi levada de avião para Miami. Segundo o primeiro-ministro, ela está fora de perigo e em condições “estáveis”.

A filha do casal, Jomarlie, estava em casa durante o ataque, mas escondida num cômodo pequeno da residência, disse o magistrado Carl Henry Destin ao jornal Le Nouvelliste.

“O escritório e o quarto foram saqueados. Encontrámo-lo deitado de costas, com calças azuis, uma camisa branca manchada de sangue, a boca aberta e o olho esquerdo perfurado", disse o magistrado.

O assassinato ameaça desestabilizar ainda mais o país mais pobre das Américas, já confrontado com uma dupla crise política e de segurança.

O Departamento de Estado dos EUA apelou à continuação do processo para as eleições legislativas e presidenciais, provisoriamente marcadas para 26 de setembro de 2021, com um segundo turno em 21 de novembro.

O Secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, telefonou a Claude Joseph a afirmou “o compromisso” dos Estados Unidos de “trabalhar com o governo do Haiti para apoiar o povo haitiano, a governança democrática, a paz e a segurança”, disse o porta-voz norte-americano, Ned Price.

"Um novo terramoto" 

Às mensagens de repulsa ao crime vindas de Washington, da Organização dos Estados Americanos ou da União Europeia, foi acrescentada nesta quinta-feira uma declaração do papa Francisco, que expressou “tristeza” pelo “hediondo assassinato”. O pontífice disse condenar “todas as formas de violência como meio de resolução de crises e conflitos”.

Após ouvir a notícia, todas as atividades foram paralisadas em Porto Príncipe e nas cidades que compõem a província, de acordo com testemunhas.

Bernadette, 44 anos, descreveu o evento como “um novo terremoto”. A comparação feita pela mulher é com o devastador tremor de terras que atingiu o Haiti em 2010 e deixou mais de 300 mil mortos.

Jacquelyn, de 50 anos, moradora da periferia da capital, questiona sobre a motivação dos criminosos. “Quem teria interesse em assassinar Jovenel Moïse? Isso nunca saberemos”, disse ela na quarta-feira.

Oriundo do mundo dos negócios, Moïse, 53 anos, foi eleito presidente em 2015 com a promessa de desenvolver a economia do país. Ele tomou posse em fevereiro de 2017.

Embora tivesse servido em numerosos setores econômicos, incluindo a bananicultura, tinha pouca experiência política quando foi eleito.

 

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