Guilherme Russo/Estadão
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Haiti tem 347 mil refugiados após tremor que matou 200 mil pessoas

Segundo o presidente Michel Martelly, três anos depois de terremoto de desabrigou 1,5 milhão de haitianos, 1/3 da ajuda em dinheiro chegou ao governo

Guilherme Russo, enviado especial/Porto Príncipe, O Estado de S. Paulo

12 de janeiro de 2013 | 02h00

Três anos depois do terremoto que devastou a capital haitiana, Porto Príncipe, matou 220 mil pessoas e desabrigou 1,5 milhão, cerca de 347 mil haitianos ainda vivem em moradias provisórias. A reconstrução do país, financiada principalmente por acordos bilaterais, é considerada lenta por representantes da ONU, diplomatas, analistas políticos, pela população e pelo próprio presidente, Michel Martelly.

"Muitas nações mandam dinheiro para o Haiti - e o Haiti parece cada vez pior. Isso significa que algo não está funcionando. Não há resultados, não somos cegos", disse Martelly em entrevista coletiva concedida ontem em Porto Príncipe.

"Esse sistema é utilizado há anos e os objetivos têm sido fracassos atrás de fracassos. Parem de mandar dinheiro! Vamos consertar isso. Não queremos caridade, queremos investimentos", afirmou. Segundo o presidente, "apenas" um terço do dinheiro destinado à reconstrução, de acordo com o líder, cerca de US$ 2 bilhões, acabou nos cofres públicos haitianos. "A grande maioria foi para as ONGs". Martelly evitou opinar se a situação estaria melhor se o dinheiro gasto no Haiti após o terremoto tivesse sido entregue diretamente a seu governo.

Em Porto Príncipe e seus arredores, aproximadamente 500 campos abrigam os refugiados que perderam suas casas e não têm para onde ir. Em Jean-Marie Vincent, onde vivem 54 mil haitianos que perderam suas casas no terremoto de 12 de janeiro 2010, a grande maioria dos abrigos ainda é composta por barracas de lona.

Grávida de 6 meses e mãe de duas crianças, de 5 e de 3 anos, Yolande Antoine, de 24 anos, afirmou que o principal problema do acampamento é a criminalidade. "Antes, eu era comerciante, vendia bacias, bolachas, balas. Mas roubaram minhas mercadorias há 7 meses e não consegui mais me recuperar. Não tenho uma vida boa. Aqui não tem segurança, não tem comida, não tem banheiro", disse. De acordo com ela, a violência sexual atinge muitas mulheres no local.

O desempregado Pablo Estefil, de 19 anos, que limpa carros com uma flanela nas ruas de Porto Príncipe, reclama das condições de vida nos campos de refugiados. "Moramos em barracas. A vida é muito ruim aqui. Quando não faz calor demais, é porque chove dentro (dos abrigos). Gente de fora e de dentro vem roubar aqui", afirmou em português o haitiano, que ainda se comunica em espanhol, inglês, árabe e creole. Estefil não fala francês porque não frequentou os colégios do país, nos quais a língua da ex-metrópole é ensinada.

Reconstrução. Segundo as Nações Unidas, 80% dos escombros que tomaram conta da capital em razão do sismo já foram removidos, mas edifícios parcialmente ou totalmente destruídos continuam compondo o cenário do centro da cidade.

Ainda de acordo com a ONU, US$ 6,43 bilhões de doadores internacionais já foram investidos na reconstrução do Haiti. A entidade estima que, até 2020, US$ 13,34 bilhões sejam arrecadados e aplicados em ajuda humanitária e em reformas de infraestrutura.

No Bulevar Jean-Jacques Dessalines, avenida que concentra o comércio informal na região central da capital haitiana, a destruição é evidente. "Nada mudou aqui depois do terremoto. Tudo continua igual. Para mim, não chegou nenhuma ajuda", afirmou o ambulante Guilouse Richard, de 30 anos, que após o sismo passou a buscar a vida no centro de Porto Príncipe

Segundo o chileno Mariano Fernández, chefe da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), a morte de um terço dos funcionários públicos haitianos e dos os principais integrantes da cúpula das Nações Unidas no terremoto causou um retrocesso na instauração do estado de direito no país.

De saída do cargo, Fernández relaciona a lentidão na estabilização à retirada de boa parte da ajuda emergencial que inúmeras organizações não governamentais ofereceram após o sismo. Ele atribui o fato à crise econômica, principalmente na Europa. "As nações de onde vinha o sustento dessas entidades suspenderam o financiamento. O Haiti deixou de ser o país das ONGs para ser o país dos desempregados", disse o chileno. Dos 4,2 milhões de haitianos considerados ativos enquanto força de trabalho, apenas 200 mil têm emprego formal atualmente. Para o embaixador brasileiro no Haiti, José Luiz Machado e Costa, as ONGs não são a principal fonte de financiamento para a reconstrução do país. "Não se sabe quantas entidades estão por aqui", disse.

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