Haitianas engravidam para escapar de surras

Milhares de mulheres no Haiti buscam na gravidez um pretexto para ser poupadas da violência de seus maridos; crianças também sofrem em casa

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

PORTO PRÍNCIPE

Além da ameaça da criminalidade, das gangues armadas e do terremoto que deixou mais de 230 mil mortos no Haiti em janeiro, as mulheres haitianas enfrentam dentro de casa uma das maiores ameaças: a violência dos maridos.

Embora não haja estatísticas oficiais, o Hospital de Campanha da Força Aérea Brasileira ? que iniciou suas operações no Haiti cinco dias após o terremoto e só fechou as portas na sexta-feira ? foi responsável, nos últimos quatro meses, por receber dezenas de casos de fraturas, hematomas e até perfuração nos olhos em mulheres que apanham de seus maridos.

"Elas engravidam para não apanhar. Dizem que quando estão em gestação são menos agredidas e recebem alimentos. Vi várias mulheres menores de 30 anos passando pela sexta gestação. São mulheres que nunca fizeram um exame de sangue na vida e deram à luz em suas casas", disse ao Estado a tenente Fabíola Marques, ginecologista obstetra. "Mesmo assim, elas se ofendem quando oferecemos laqueadura."

Venia Telemac, de 26 anos, estava numa das macas da barraca de geriatria do hospital, esperando pelo parto que ocorreria em seguida. "Nunca tinha visto um médico antes na minha vida", disse.

Além das mulheres, as crianças haitianas também sofrem com a violência doméstica. Depois dos 7 anos, muitas delas são "doadas" para famílias menos pobres e passam a viver numa situação análoga à escravidão. É nesse grupo que os estupros de crianças são mais frequentes. A tenente Fabíola diz que em alguns casos, as crianças de ambos os sexos são "tão brutalmente violentadas que acabam sofrendo lacerações".

A incidência de aids entre os haitianos é considerada baixa ? os médicos do hospital falam em 3%. No hospital da FAB ? que realizou mais de 36 mil atendimentos gratuitos desde janeiro ? as haitianas que recebem a informação de que estão infectadas pelo HIV acabam jogando o resultado do exame fora, antes de mostrar ao marido.

Nelson Lovelyne, de 21 anos, era uma das pacientes que esperava para ser atendida no hospital quando recebeu a notícia de que a unidade seria desmontada no mesmo dia. "Antes de vir aqui, eu nunca tinha entrado num hospital", disse ela, apoiada sobre um par de muletas e com uma perna quebrada.

Emile Bérnard também teve de voltar para casa sem ser atendido ontem. Ele trazia o filho de 5 anos para ser examinado pelos médicos brasileiros depois de dois dias de febre persistente. "Aqui não há saúde de graça. Esse era o único hospital não privado que eu conheço", lamentou.

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