Haitianos admitem terem entregue filhos a grupo batista

Alguns pais do povoado de Callebas, nas proximidades da capital haitiana, disseram que entregaram voluntariamente a custódia de seus filhos para um grupo de missionários norte-americanos. A história contada pelos moradores contradiz as afirmações de um pastor que assessora o grupo de batistas, que afirmou que as crianças eram de orfanatos ou que foram entregues por parentes distantes. O fato é um testemunho da miséria do país mais pobre do hemisfério ocidental, assolado por um terremoto no dia 12 de janeiro. Muitos desses pais disseram que não saberiam o que fazer se tivessem que recolher seus filhos novamente.

AE-AP, Agencia Estado

04 de fevereiro de 2010 | 15h00

"Estou vivendo numa barraca com um amigo", disse Laurentius Lelly, técnico de computadores de 27 anos que entregou seus dois filhos, de 4 e 6 anos. "Minha principal preocupação é que se as crianças voltarem eu não serei capaz de alimentá-las".

Os norte-americanos devem comparecer hoje perante um promotor que vai decidir se vai indiciá-los ou libertá-los, disse a ministra de Comunicações Marie-Laurence Jocelyn Lassegue. Os dez integrantes da igreja Batista, a maioria deles de Idaho, foram detidos na semana passada quando tentavam cruzar com 33 crianças haitianas a fronteira para a República Dominicana, sem os documentos exigidos, segundo as autoridades do Haiti.

Em meio a pilhas de escombros do que eram suas casas e abrigados agora em barracas improvisadas de zinco e plástico, os moradores de Callebas contaram como entregaram suas crianças. Tudo começou na semana passada, quando um funcionário de um orfanato local, fluente em inglês e agindo em nome dos batistas reuniu quase todos os 500 habitantes da vila num campo de futebol para apresentar a oferta norte-americana.

Isaac Adrien, de 20 anos, disse a seus vizinhos que os missionários educariam seus filhos na vizinha República Dominicana, disseram os moradores, afirmando também que lhes foi dito que teriam liberdade total para visitar os filhos. Muitos pais aceitaram a oferta. "Foi apenas porque o ônibus estava cheio que mais crianças não embarcaram", disse Melanie Augustin, de 58 anos, que entregou sua filha de 10 anos aos norte-americanos.

Adiren disse ter conhecido a líder batista Laura Silsby em Porto Príncipe no dia 26 de janeiro. Ela disse a ele que estava procurando crianças sem-teto e que ele sabia exatamente onde encontrá-las. Ele voltou para sua vila natal, Callebas. Naquele mesmo dia, ele fez uma lista de 20 crianças.

Jorge Puello, advogado do grupo de batistas, disse ontem, em ligação da República Dominicana, que os missionários "receberam de bom grado as crianças que eles sabiam não serem órfãos porque seus pais disseram que elas morreriam de fome". O primeiro-ministro Max Bellerive sugeriu que os norte-americanos poderiam ser processados nos Estados Unidos porque o destruído sistema judiciário haitiano pode não conseguir realizar o julgamento.

Em Washington, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que a tentativa de levar crianças sem documentação para fora do Haiti foi "infeliz, independentemente da motivação" e que os norte-americanos deveriam ter seguido os procedimentos adequados. Ela disse que autoridades dos Estados Unidos estavam discutindo com os haitianos sobre como resolver o caso.

Lelly disse estar preocupado com o fato de o sistema judiciário haitiano não ser capaz de investigar o caso. Nenhum investigador policial ou de serviços sociais visitou a vila desde que os norte-americanos foram detidos na fronteira, informaram os pais. "Eu gostaria de descobrir se essas pessoas iam realmente ajudar as crianças ou tentariam roubá-las", disse.

As crianças, com idades entre 2 e 12 anos, estão agora sob os cuidados da entidade australiana SOS Children''s Village, em Porto Príncipe. Um pastor haitiano que trabalhava como consultor voluntário do grupo disse que os batistas não fizeram nada de errado. O reverendo Jean Sainvil disse que algumas das crianças eram órfãs e seriam colocadas para adoção. Crianças que têm pais seriam mantidas na República Dominicana e não perderiam contato com suas famílias.

"Todos concordam que sabiam para onde as crianças estavam indo. Os pais foram avisados e confirmamos que eles tinham permissão para ver as crianças e até levá-las de volta se necessário", disse ele. Sainvil lembrou que no Haiti não é incomum que pais que não podem cuidar de seus filhos os enviem para orfanatos.

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