Ramon Espinosa/AP
Ramon Espinosa/AP

Haitianos atacam a ONU e médicos falam em colapso

Polícia lança bombas de gás diante do palácio presidencial, enquanto hospitais planejam armar novos leitos no meio das ruas

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

A 12 dias das eleições, o Campo de Marte - um dos maiores e mais precários acampamentos de deslocados, montado na frente do palácio presidencial desde o terremoto de janeiro - foi palco ontem de violentos protestos de haitianos revoltados contra as tropas das Nações Unidas. A multidão foi dispersada com bombas de gás lacrimogêneo, lançadas pela tropa de choque da Polícia Nacional Haitiana (PNH).

As manifestações - marcadas ontem pelo uso de barricadas de entulhos e pelas pedras lançadas contra militares e veículos de organismos internacionais - vêm crescendo a cada dia no Haiti, à medida que aumenta o número de infectados pela epidemia de cólera que já deixou mais de 1.100 mortos e 18 mil internados.

Ontem, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançaram um duro alerta sobre a situação dos hospitais no Haiti. "Se o número de casos continuar aumentando, teremos de adotar medidas drásticas. Vamos atender em espaços públicos e até mesmo nas ruas", disse Stefano Zannini, chefe dos MSF no Haiti. Além da falta de estrutura física, os médicos também estão à beira do colapso pela sobrecarga de trabalho. "Estamos sobrecarregados. Nossas equipes estão trabalhando 24 horas por dia e o cansaço está se tornando um problema. A carga de trabalho é estressante. Não é fácil trabalhar com o cheiro, o barulho e a pressão de tantos doentes", disse Zannini.

A organização também se queixou da falta de apoio dos países e outras organizações internacionais. "Outros atores precisam se envolver mais. As necessidades são enormes para serem supridas apenas pelas organizações que estão trabalhando atualmente", disse Zannini.

Violência. O caos sanitário vem sendo agravado pelas manifestações violentas, muitas vezes estimuladas por grupos políticos envolvidos na eleição presidencial e parlamentar do dia 28.

No confronto de ontem com a polícia, dezenas de moradores do gigantesco acampamento Campo de Marte tiveram de fugir, correndo em todas as direções, tentando evitar a irritação provocada pela densa nuvem de fumaça das bombas de gás lançadas pela PNH. O campo abriga centenas de crianças que, quando intoxicadas pelo gás lacrimogêneo, têm seus rostos lavados com água pelos pais, o que aumenta a irritação na pele e nos olhos. Mesmo que invariavelmente terminem em confronto, as manifestações nunca são acompanhadas por serviços médicos ou socorristas.

"Vimos muitas manifestações ontem em Porto Príncipe porque foi um data nacional em que eles celebram a vitória contra a França (o país foi colônia francesa de 1697 a 1804). Eles protestaram principalmente contra o Ministério da Saúde porque estão desesperados e desamparados por ter vivido um terremoto devastador seguido de uma epidemia de cólera", disse ao Estado o coronel Valdir Campelo, porta-voz do Batalhão Brasileiro 1 no Haiti. O militar negou que as tropas da ONU em Porto Príncipe tenham sido apedrejadas.

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