Haitianos marcham contra Préval

Polícia tenta conter manifestação de pelo menos 3 mil pessoas diante do palácio presidencial com barreiras de ferro e bombas de gás

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL PORTO PRÍNCIPE

Pelo menos 3 mil haitianos marcharam ontem no centro da capital, Porto Príncipe, reivindicando a saída do presidente René Préval e das forças de paz da ONU. A polícia montou barreiras de ferro ao redor das ruínas do Palácio Nacional, sede do governo, para tentar conter a marcha e dispersou os opositores com bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta.

A reportagem do Estado viu pelo menos uma criança e centenas de adultos intoxicados após inalar o gás lançado pela polícia. A menina, de aparentemente 6 anos, vivia com a família em um dos maiores e mais miseráveis acampamentos de deslocados do Haiti, o Champs de Mars, formado por milhares de tendas de lona que cercam o palácio presidencial desde o terremoto de 12 de janeiro.

Durante toda a manhã, os capacetes azuis cumpriram ordens de permanecer aquartelados, três dias depois de soldados brasileiros terem sido apedrejados por estudantes nos arredores do Palácio Nacional.

O clima de tensão cresce no Haiti à medida que se aproxima a data prevista para as eleições presidenciais de novembro. Préval disse que "nem a comissão eleitoral criada pela ONU foi capaz de dar garantias de que as eleições possam acontecer na data prevista". Segundo ele, há muitos eleitores sem nenhum documento de identidade e fora de seu domicílio eleitoral depois do terremoto. Para a oposição, o presidente estaria articulando um golpe de Estado.

A marcha de ontem foi convocada por dezenas de organizações sociais e partidos políticos de oposição e teve início ao meio-dia nas ladeiras do bairro de Bel Air. Os manifestantes desciam as ruas correndo, cantando "fora Préval". Ao descer a última rua, na lateral da fachada do Palácio Nacional, a polícia lançou as bombas. "É assim que se faz política no Haiti", gritou Pierre Fritzner, enquanto corria com os olhos lacrimejando. "Pelo menos, acho que eles não atiraram na gente dessa vez."

Muitos manifestantes mostravam cartazes com o rosto do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide. Ele entregou uma carta de renúncia - embora diga que foi obrigado a renunciar - em fevereiro de 2004 e atualmente está exilado na África do Sul. Simpatizantes do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, (1971-1986) também têm saído às ruas da capital.

"Tenho saudades do tempo do Baby Doc", disse um manifestante que pediu para não ser identificado. "Naquela época, pelo menos, nós sabíamos de onde vinha a violência. Hoje, é sequestro, morte, linchamento, ninguém sabe de onde a morte pode vir."

País em crise

Terremoto

Tremor de janeiro deixou 230 mil mortos, feriu outras 300 mil e desabrigou 1,5 milhão. Na véspera da temporada de furacões, famílias vivem em lonas

Economia

80% da população está desempregada; haitianos ganham US$ 5 por seis horas de trabalho recolhendo destroços

Corrupção

Governo é um dos mais corruptos e menos eficazes do mundo; temor de desvio das doações

Segurança

Além da ação das gangues armadas, foram relatados casos de estupro de desabrigadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.