Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

Haitianos que emigraram também têm dificuldades

Jean Claude Michel deixou Porto Príncipe após uma série de desastres naturais que devastaram o país

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

A rosa vermelha de plástico está pendurada na parede há cerca de dois anos e de lá deve sair quando for entregue para a mãe do mecânico Jean Claude Michel, de 40 anos. No Brasil desde 2013, ele deixou Porto Príncipe, no Haiti, após uma série de desastres naturais que devastaram o país.

"Teve tempestade em 2004 e 2008, terremoto em 2010. Cada ano tem uma catástrofe que quebra tudo. Estava complicado, era muito sofrimento", relembra, antes de um longo período de silêncio.

Michel conta que o trabalho como mecânico o aproximou de brasileiros que atuavam na missão de paz no Haiti e, fã de futebol, encontrou no Brasil a esperança de ter uma vida mais tranquila e poder viver aqui com a mãe, a filha e a namorada. Mas o início foi complicado. Viajou só e passou o primeiro mês em um albergue da Prefeitura.

"Trouxe dinheiro, só que o amigo que trocava ficava com a metade e me dava o resto. Mas não vou ficar com raiva dele. Em um mês, consegui um emprego em Santo André em um restaurante e fiquei por seis meses. Depois, fiz um curso de mecânica em São Bernardo", diz. Ele mostra com orgulho vários comprovantes de conclusão de cursos na área - tem um deles emoldurado na parede.

Embora tenha se especializado e fale cinco idiomas (inglês, francês, espanhol, português e crioulo), Michel está desempregado desde junho de 2015. Quando tinha emprego no seu país, ganhava o equivalente a R$ 3.500 por mês.

"Eu já mandei currículo para tanto lugar: Santo Amaro [zona sul de São Paulo], Osasco, Diadema. Eu ando até longe para entregar, mas nunca me chamam. Eu pago R$ 400 de aluguel, fora água e luz. Tem meses que atraso, mas faço bico e não devo um centavo. Até dia cinco, tudo vai estar pago, deixo tudo para Deus."

É com fé que o mecânico aguarda pelo dia em que vai ter sua própria oficina "com elevador e macaco jacaré" para trabalhar e ter condições de trazer a família. Batizado há menos de um mês na Igreja Internacional da Graça de Deus, ele tem três bíblias em casa. Uma é especial. Escrita em francês, foi um presente dado pelo cunhado, o engenheiro Franz Saint-Phat, que permanece no país.

"Que esta bíblia seja um guia que te conduza para a vida eterna", traduz a dedicatória feita com uma letra caprichada e datada de 28 de janeiro de 2013, dois dias antes de Michel desembarcar no Brasil. As orações são feitas sempre às 6h, ao meio-dia e às 18h.

Saudade

O celular com algumas avarias é seu meio de contato com a mãe, a namorada e a filha. "Minha mãe está sofrendo muito. A casa dela foi quebrada no terremoto de 2010 e, no ano passado, passou um ciclone e quebrou de novo. Está difícil ajudá-la. Utilizo o WhatsApp e converso com a minha família todos os dias."

Em uma ida ao centro, comprou a rosa de plástico que guarda para entregar para a mãe, Eugenie. "É uma homenagem. Quero dar para ela."

Foi durante a conversa com a reportagem que ele soube da saída das tropas brasileiras do Haiti. "Minha televisão está quebrada desde março", justificou. Um sorriso largo se abriu ao ver uma foto de soldados interagindo com crianças. "Eles ajudaram muito."

Também se recorda da vida do Haiti, fazendo cartões com desenhos bordados. "É uma tradição. É uma carta para convites, casamentos, Natal."

Apesar da saudade, decidiu que não vai voltar. "Quero passar para ver minha família, mas já sei como o país está e gosto mais daqui." A última vez que ele visitou o Haiti foi em 2015.

Um dos motivos é o filho de 3 anos, fruto de um relacionamento com uma brasileira, cujo crescimento faz questão de acompanhar. Michel conta que Nadia, sua namorada haitiana, ficou muito brava quando soube da relação, mas já o perdoou e, por isso, ele mantém o plano de trazê-la para o Brasil.

"Eu durmo cedo. Às vezes, sonho com a minha família. Sonho que a minha mãe, minha filha e minha namorada estão aqui. Acordo pensando que elas realmente estavam."

 

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