PASCAL USTIN
PASCAL USTIN

Haitianos que saíram do Brasil ficam em Tijuana após esbarrar em Trump

Sem conseguir entrar nos EUA, imigrantes do Haiti adotam cidade mexicana como lar e se dividem entre o arrependimento por terem deixado o território brasileiro e a esperança de chegar ao outro lado da fronteira

Letícia Duarte, ESPECIAL PARA O ESTADO / TIJUANA, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 05h00

Mesmo tendo deixado o Brasil há quase dois anos, seguindo milhares de compatriotas que embarcaram em uma viagem com ares de epopeia rumo ao sonho americano, o haitiano Amós Carrier, de 34 anos, ainda assiste ao programa do Faustão todos os domingos, pela internet. Sua mulher, Lugena, da mesma idade, segue cantando as músicas das novelas brasileiras. 

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A programação ameniza a saudade do país que deixaram em meio à crise de 2016. Em caravanas, haitianos como eles percorreram pelo menos 12 mil quilômetros desde a fronteira com o Brasil e cruzaram a América Latina imaginando que teriam uma vida melhor nos EUA – alguns viajando por até três meses e cruzando nove países. 

Após a eleição de Donald Trump, viram a porta se fechar antes de chegar ao destino e pararam em Tijuana, na fronteira mexicana com San Diego, na Califórnia. A saga resultou na criação de uma nova colônia haitiana com sotaque brasileiro em Tijuana. Segundo dados do Conselho Estatal de Atenção ao Migrante, cerca de 3 mil haitianos vivem hoje no Estado da Baixa Califórnia – 90% em Tijuana. 

O novo fluxo migratório foi estudado por pesquisadores do Colégio da Fronteira Norte, em parceria com a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México. Após entrevista com 661 migrantes, elaboraram um documento revelando que nove em cada dez haitianos chegados a Tijuana no final de 2016 haviam residido no Brasil. 

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Naquele ano, a região recebeu 15 mil migrantes, sendo 80% haitianos. A estimativa é a de que metade tenha conseguido cruzar antes da posse de Trump. O pesquisador Gabriel Pérez Duperou diz que a falta de empregos foi apontada como o principal motivo para a debandada dos haitianos do Brasil. Preferiram apostar na prosperidade americana, onde muitos já tinham parentes.

“Mesmo assim, diziam que a vida no Brasil era boa e prefeririam regressar se não entrassem nos EUA. O México seria a terceira opção, mas muitos acabaram ficando, esperando uma oportunidade para cruzar no futuro”, observa Duperou.

No caso de Amós, que viveu 6 anos em Curitiba, a estada em Tijuana se deve ao que ele considera um chamado divino. Abrigado por uma igreja evangélica, o pintor acabou nomeado pastor. Hoje, comanda cultos semanais em crioulo, a língua mais popular no Haiti, para mais de 150 devotos. “Não volto para o Brasil por causa da Igreja”, diz Amós, que tinha carteira assinada quando partiu. “Não queria ir embora. Mas minha mulher queria ir para os EUA e todo mundo estava indo. Como não conseguimos entrar, ela quer voltar para o Brasil. Mas agora tenho uma missão aqui.” 

Arriscada e exaustiva, a jornada dos haitianos entre Brasil e México está prestes a virar livro. Na obra Sobreviventes – Cidadãos do Mundo, ainda não publicada, o imigrante Pascal Ustin Dubuisson, de 25 anos, narra em 253 páginas a travessia. O capítulo mais dramático se passa em uma selva de 575 mil hectares entre a Colômbia e o Panamá. A região de Darién já foi comparada ao inferno por desbravadores e é tradicional esconderijo para guerrilhas colombianas. 

“Teve gente que morreu de fome e debilidade pelo caminho, pois são cadeias de montanhas. A gente ia cruzando e rezando. Alguns nunca chegaram”, lamenta. Pascal levou nove dias para atravessar Darién. O grupo de 20 pessoas parava para dormir na mata. “Dez dormiam e dez ficavam acordados, depois a gente trocava.”

À medida em que avançavam, havia outros percalços. A negativa da Nicarágua em autorizar a entrada de imigrantes, por exemplo, fez com que tivessem de contratar coiotes para cruzar o país, pagando de US$ 1 mil a US$ 1,5 mil dólares por pessoa. “Como muitos não tinham dinheiro para pagar, a gente teve de esperar até que parentes nos mandassem. Ficamos dois meses na Costa Rica, em abrigos do governo.” 

Pascal espera que a narrativa mude a imagem dos haitianos. “Há quem pense que estamos aqui por um favor. Quero mostrar que temos capacidades. Estamos no mesmo mundo, compartilhando a mesma educação, podemos fazer coisas boas”, ressalta Dubuisson.

No Haiti, ele estudava Direito. No Brasil, onde viveu por quase dois anos, trabalhava em um restaurante em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Um dos elogios que faz ao Brasil é a rapidez com que legalizou a entrada de seus conterrâneos, que começaram a chegar pelo Acre desde o terremoto que devastou o Haiti, em 2010. 

Pesquisando em seu doutorado pela Unicamp a migração de haitianos do Brasil para o México, a socióloga brasileira Domila Pazzini segue desde janeiro a comunidade formada em Tijuana. “Eles acompanham todas as notícias. No dia em que Lula foi preso, por exemplo, todos vieram comentar”, lembra. 

A cultura haitiana de valorização do trabalho é um fator favorável na adaptação. “Eles têm uma moral do trabalho muito forte, falam com orgulho que não estão pedindo dinheiro, que podem até vender coisas no semáforo, mas estão trabalhando”, afirma Domila.

O pesquisador Duperou lembra que, quando a onda de haitianos chegou a Tijuana, havia um temor de que fossem vítimas de xenofobia. Quase dois anos depois, o que se observa é o oposto. “Não temos haitianos nas ruas. Eles estão dando aulas de danças, aprendendo espanhol e indo para a universidade”, celebra.Pesquisa feita pelo Colegio de La Frontera Norte (Colef) sobre o perfil dos recém-chegados mostrou que 74% deles tinham nove anos de estudo ou mais. A maioria era de homens (67%) e mais de 50% tinham entre 25 e 34 anos. “Não temos registros de haitianos em situação de indigência. Muitos têm experiência como técnicos e em empregos anteriores no Brasil, isso ajuda”, diz Duperou.

“Eles falam várias línguas e em geral têm um nível de escolaridade maior do que os outros migrantes, isso facilita sua colocação”, avalia a presidente da associação civil Espacio Migrante, Paulina Olvera Cáñez. 

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