Lourival Sant'Anna/Estado
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Halim, estudante, líder quase por acaso

Universitário de 22 anos diz ter ficado surpreso com a adesão de manifestantes nos primeiros dias do protesto que derrubou Mubarak

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Na noite de 24 de janeiro, Halim Henish, de 22 anos, estudante do quarto ano de direito, desceu de seu apartamento para buscar os 15 cartazes que tinha encomendado numa gráfica ao lado, com palavras de ordem contra o regime. Ao chegar lá, foi preso. O dono havia telefonado para a polícia. Eram 23h30. Halim foi solto às 3 horas do dia seguinte.

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Até a noite de anteontem, ele estava com o mesmo chinelo de dedo verde e amarelo, jaqueta cinza, calça cargo marrom e camisa de flanela que usava quando desceu de seu apartamento, para onde não pôde voltar.

Halim é um dos fundadores do movimento Justiça e Liberdade, criado em julho, depois que Khaled Said, de 28 anos, foi espancado até a morte por policiais em Alexandria. O grupo começou com cem integrantes, na maioria estudantes; hoje tem 700, segundo Halim. No início de dezembro, eles participaram da organização dos protestos de 25 de janeiro, por meio da página Somos Todos Khaled Said, criada no Facebook pelo diretor de Marketing do Google para o Oriente Médio, Wael Ghonim.

A data foi escolhida por ser o Dia da Polícia no Egito. "Não tinha nada a ver com a Tunísia", recorda Halim, referindo-se aos protestos que eclodiram no fim de dezembro no país vizinho, levando à queda há um mês do presidente Zine Abidine Ben Ali, no poder havia 23 anos. "Claro que o que aconteceu lá serviu de incentivo." Muitos dos manifestantes eram estudantes e era época dos exames finais na universidade. "Eles disseram: "Dane-se. Não vamos fazer os exames enquanto Mubarak não cair"." As universidades, como todo o resto, acabaram fechadas e os exames, adiados.

A ideia inicial era ir para a frente do prédio do Ministério do Interior, mas os organizadores consideraram muito arriscado, por ser proibido. Decidiram então partir de cinco pontos do Cairo, incluindo bairros pobres, onde poderiam juntar mais gente. "Os pobres são mais afetados pela violência da polícia." A expectativa era reunir no máximo 5 mil pessoas.

Halim começou a sua marcha às 13 horas, perto de uma favela na Rua Nahia, na periferia da cidade, com 150 pessoas. Depois de várias idas e vindas, eram 4 mil, segundo seu cálculo. A polícia chegou, mas, diferentemente de outras vezes, não reprimiu o protesto. Ficou só observando.

Às 14 horas, depois de 20 minutos de caminhada, os manifestantes chegaram à Mesquita Mustapha Mahmoud, no populoso bairro de classe média de Mohandiseen. Lá, a multidão cresceu para 10 mil, segundo Halim. Ao contrário da Rua Nahia, o ponto de encontro na mesquita havia sido divulgado na internet e lá havia um efetivo bem maior da polícia. A aglomeração cresceu e chegou a 30 mil.

"Então a polícia começou a bater", lembra Halim, um rapaz alto e forte, de cabelos encaracolados e pele morena. "Normalmente, a polícia nos deixava gritar umas palavras de ordem até ficarmos roucos, prendia uns cinco ou sete e pronto." Dessa vez foi diferente. "A polícia ficou surpresa com o número de pessoas." Antes, quando a polícia erguia barreiras, os manifestantes ficavam atrás. Dessa vez, passaram por cima. "A polícia não tinha um plano", diz ele. "Em outros lugares foi muito mais violenta (a repressão)."

A Praça Tahrir era um dos cinco pontos de encontro. Lá se reuniram 5 mil manifestantes. A ideia de se juntarem todos lá surgiu espontaneamente, no decorrer das marchas. As autoridades haviam bloqueado os celulares, e o chamado para a praça se espalhou de boca em boca. Por volta das 16 horas, todos começaram a gritar nos vários pontos da cidade: "Se você quiser mudança, marche para Tahrir." Às 17 horas, havia cerca de 100 mil pessoas na praça central do Cairo.

A polícia tentou dispersar a multidão com cassetete, jatos de água, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e até pedras. Uma pedra atingiu Halim no rosto, quebrando seu nariz e fechando seu olho esquerdo. Ele protegeu o rosto com a jaqueta e avançou. "Foi muito caótico", recorda. "Vinha gente de todos os lados, tentando alcançar o prédio do Parlamento." Entre 18 e 19 horas, a polícia recuou e se concentrou em proteger o prédio, no flanco leste da praça.

Por volta de 19 horas, o então ministro do Interior, Habib el-Adly, declarou que, se até meia-noite a multidão não tivesse dispersado, recorreria à violência. "Decidimos que, se isso acontecesse, nos reuniríamos na sexta-feira de novo (dia do descanso semanal muçulmano) na Tahrir, vindo de cinco ou seis lados diferentes." À 0h30, a polícia atacou, disparando bombas de gás lacrimogêneo ao mesmo tempo, "algo sem precedentes", diz o estudante. "Eu não conseguia enxergar nada, com um olho ferido e o outro contaminado pelo gás."

Halim foi para o apartamento de um amigo no centro. Nenhum dos organizadores - 300 a 400 pessoas, dos quais 30 líderes - voltou para casa, pois seriam presos na certa. No dia seguinte, os feridos não saíram, porque também seriam presos. Na quarta e na quinta, houve pequenas manifestações, com apoio dos sindicatos dos jornalistas e dos advogados. Halim só saiu na quinta, para tratar com um médico particular do seu olho e de um ferimento na perna feito com bala de borracha.

Os celulares estavam bloqueados e os organizadores e líderes se comunicavam por telefones públicos e das casas onde estavam. Pela internet, anunciaram pontos de encontro em mesquitas, após as orações do meio-dia de sexta. Halim continuou no apartamento de seu amigo, por causa do ferimento no olho.

Os manifestantes chegaram mais preparados. Na internet, haviam encontrado dicas de tunisianos sobre como lidar com o gás lacrimogêneo: embeber um pano em vinagre para inalar, jogar Pepsi-Cola nos olhos e lançar as bombas na água. Na Ponte Kasr el-Nil, que dá acesso à Praça Tahrir, eles pegavam as bombas com luvas e jogavam no Nilo. Os policiais disparavam canhões de água depois das bombas. "Muito do nosso sucesso se deveu à estupidez da polícia", diz Halim sorrindo. "Eles jogaram água nas pessoas enquanto ainda estavam se despedindo depois das orações nas mesquitas, o que enfureceu muita gente e os encorajou a aderir."

Às 16 horas, eles chegaram à praça. Eram mais de 100 mil. "Pela primeira vez, sentimos que devíamos enfrentar a polícia." Por volta de 20 horas, a polícia desapareceu. Na terça seguinte, 1 milhão de pessoas saíram às ruas em todo o Egito. A conquista da praça só seria ameaçada cinco dias depois, na chamada Quarta-Feira Sangrenta, quando policiais à paisana e ativistas do Partido Nacional Democrático, do governo, atacaram os manifestantes com pedras e coquetéis molotov. Nove pessoas morreram, mas os manifestantes venceram e o Exército cercou a área, impedindo novos ataques.

Agora era questão de tempo. A "thawra", revolução, venceu na noite de anteontem, com a renúncia de Mubarak. O que Halim pretende fazer? Entrar para a política? Ele diz que não. "Quero ir para uma ilha com minha mulher amada, que ainda não encontrei, e o meu notebook."

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