Mahmud Hams/AFP
Mahmud Hams/AFP

Hamas e Israel fecham trégua em Gaza

Acordo mediado pelo Catar permitirá a entrada no território de suprimentos e combustível, que abastecerá a única central elétrica

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 16h24

GAZA -O movimento islâmico palestino Hamas, que há mais de uma década controla a Faixa de Gaza, e Israel anunciaram nesta segunda-feira, 31, um “acordo” para encerrar as trocas quase diárias de ataques e permitir a entrada de suprimentos no enclave. 

“Após diversos contatos, o último mediado pelo emissário do Catar, Mohamed el Emadi, foi alcançado um acordo para conter a escalada e pôr fim à agressão sionista contra nosso povo”, disse Yahya Sinwar, líder do Hama em Gaza.

O Exército israelense tem bombardeado a Faixa de Gaza quase todas as noites desde o dia 6 em retaliação ao lançamento de balões incendiários e de foguetes do território palestino contra Israel. Em resposta a esses lançamentos, que provocaram mais de 400 incêndios em Israel, segundo contagem dos bombeiros, Israel reforçou seu bloqueio à Faixa de Gaza, impedindo a passagem de mercadorias de Kerem Shalom e interrompendo o fornecimento de combustível para o território palestino, o que obrigou o fechamento da única central elétrica. 

De acordo com uma fonte do Hamas, que pediu anonimato, todas as facções palestinas presentes na Faixa de Gaza concordaram em pôr fim ao lançamento de balões incendiários e projéteis. A agência israelense responsável por lidar com os territórios palestinos disse em um comunicado que a passagem será reaberta para a entrada de suprimentos e os pescadores poderão voltar ao trabalho. Advertiu, porém, que essas decisões estão sujeitas à manutenção da segurança na região.

Segundo o governo israelense, Gaza voltará a ser reabastecida de combustível a partir desta terça-feira, 1, o que permitirá que a central elétrica local volte a funcionar.

Em troca do fim de agressões, serão impulsionados projetos para melhorar as más condições e a precária realidade econômica de Gaza, que enfrenta um rigoroso bloqueio israelense desde 2007, quando o Hamas venceu as eleições palestinas. Os bloqueios criam dificuldades de abastecimento de produtos básicos, como remédios e comida, para a população.

Espera-se que as iniciativas sejam lideradas pelo Catar, que desde 2018 entrega milhões de dólares em ajuda para a empobrecida população de Gaza. O Hamas disse em um comunicado que, como resultado dos esforços de mediação indireta liderados por Egito, ONU e Catar, “vários projetos serão anunciados para servir ao nosso povo na Faixa de Gaza e contribuir para mitigar as difíceis condições de vida”. O grupo não detalhou nenhum dos projetos.

Durante as negociações por meio de intermediários, o Hamas buscou uma flexibilização mais ampla das restrições ao movimento, aumento dos suprimentos de Israel e projetos econômicos em grande escala para ajudar a reduzir o desemprego. A taxa de desemprego em Gaza ultrapassa os 40% – entre os jovens é de 50% –, e 21% de seus habitantes vivem em situação de profunda pobreza. 

Segundo analistas locais, o recente aumento de tensão e o lançamento dos balões incendiários foram um método de pressão do Hamas para forçar Israel a permitir a entrada de ajuda financeira ao enclave, onde vivem 2 milhões de palestinos. 

Por ser um território bloqueado, com forte controle sobre quem entra e quem sai, a Faixa de Gaza foi por um algum tempo um dos lugares mais seguros com relação ao novo coronavírus, mas na semana passada registrou os primeiros contágios entre sua população fora dos centros de quarentena. 

esde então, os contágios por transmissão comunitária não pararam de aumentar e já foram registrados mais de 240 casos. A doença entrou no território por meio das pouquíssimas pessoas autorizadas a viajar. O sistema de saúde do território é precário e a Organização Mundial da Saúde (OMS) já advertiu que a Faixa de Gaza não terá como lidar com um grande surto.

Inimigos antigos

A Faixa de Gaza foi tomada por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e entregue aos palestinos em 2005 para fazer parte de um futuro Estado da Palestina. Mas boa parte das fronteiras, territórios aéreos e marítimos de Gaza continuou sendo controlada pelos israelenses. 

Israel e o Hamas são inimigos ferrenhos, já travaram três guerras e tiveram inúmeras escaramuças desde que o grupo militante islâmico assumiu o controle de Gaza em 2007 depois de expulsar as forças da Autoridade Palestina.

Desde então, Israel e Egito mantêm um bloqueio a Gaza, alegando que as restrições são necessárias para impedir o Hamas, considerado um grupo terrorista, de se armar. Uma das alternativas aos bloqueios foram os túneis de contrabando, que se proliferaram pelo território e eram usados para a chegada de alimentos, dinheiro, armas, combustível e materiais de construção. O fluxo foi interrompido após operação contra essas passagens subterrânea em 2013. A consequência foi a escassez desses materiais e a alta nos preços dos alimentos. Também causou desemprego nas áreas da construção civil e transportes, que dependem dos túneis. /AFP, REUTERS, EFE e AP

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