Hamas captura militar israelense e trégua de 3 dias dura 90 minutos

Combatentes radicais islâmicos armam emboscada em túnel e matam outros dois soldados de Israel; bombardeios em resposta ao ataque suicida deixaram mais de 100 palestinos mortos - cinco vezes o registrado na quinta-feira - e 400 feridos

Lourival Santanna, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2014 | 02h01

GAZA - A trégua de 72 horas entre Israel e o Hamas, resultado de enorme esforço diplomático dos Estados Unidos e da ONU, durou 90 minutos. Israel voltou a castigar a Faixa de Gaza com disparos de tanques, depois que o Hamas matou dois soldados israelenses e capturou um terceiro, segundo militares.

O dia da trégua fracassada acabou com mais de 100 palestinos mortos e mais de 400 feridos. Na véspera, 17 palestinos tinham sido mortos. As negociações podem ser retomadas amanhã, no Egito.

Conforme havia avisado, Israel manteve as operações de destruição dos túneis que ligam a Faixa de Gaza a seu território. E foi justamente em um desses túneis que a trégua sucumbiu: combatentes do Hamas, um deles suicida, emboscaram soldados israelenses na saída de um túnel no sul da Faixa de Gaza.

De acordo com o tenente-coronel Peter Lerner, porta-voz do Exército israelense, um dos combatentes detonou o colete com explosivos que levava. Seguiu-se troca de tiros, dois soldados foram mortos e um terceiro, identificado como o tenente Hadar Goldin, de 23 anos, foi levado pelos combatentes. Lerner disse que o Exército estava fazendo um "esforço extenso" para localizar o oficial. O Hamas negou ter capturado o militar israelense.

O confronto eleva para 61 o número de soldados israelenses mortos desde o início da ofensiva, no dia 7. Outros três civis, dois israelenses e um tailandês também morreram, atingidos por foguetes do Hamas. Do lado palestino, segundo o Ministério da Saúde em Gaza, foram 1.509 mortos - a grande maioria, civis - e mais de 8.300 feridos.

A trégua foi anunciada na noite de quinta-feira pelo secretário de Estado americano, John Kerry, e pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. A madrugada de ontem foi de intensa atividade da artilharia israelense. O repórter do Estado ouviu também o disparo de ao menos dois mísseis. A trégua entrou em vigor às 8 horas locais (2 horas em Brasília).

Famílias carregando colchões e outros pertences, de carro ou a pé, começaram a voltar para suas casas nas áreas atingidas pelos bombardeios. Mohamed Abu Halim, de 25 anos, que morava em um prédio ao lado de uma mesquita, ambos destruídos, disse ao Estado que no dia 23 à noite estava em casa quando o bombardeio começou. Cerca de 50 pessoas moravam no prédio e todas fugiram, sem ninguém ficar ferido, disse Halim, funcionário do Ministério da Economia.

Enquanto ele falava, chegou a notícia de que Israel tinha voltado a bombardear. Halim e outros moradores saíram correndo. O repórter seguiu para o extremo leste da Cidade de Gaza e viu os tanques do Exército israelense disparando contra alvos dentro da Faixa de Gaza. Somente no mercado de Rafah, 40 pessoas foram mortas e 250 feridas em um ataque israelense após a emboscada no túnel.

Politicamente, a captura de soldados israelenses é mais dramática do que sua morte, pois dá início a um debate interno, sobre se Israel deve negociar com o inimigo, e em que termos. Em 2011, o soldado Gilad Shalit foi solto pelo Hamas, após cinco anos de cativeiro, em troca da libertação de 1.027 palestinos. A captura de Goldin confirma um dos maiores temores de Israel: de que a rede de 31 túneis seria usada com esse fim, além de ataques-surpresa contra os kibutzim (fazendas coletivas).

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