Comunidade internacional tenta impedir Hamas de desviar recursos para construir foguetes

Comunidade internacional tenta impedir Hamas de desviar recursos para construir foguetes

Grupo radical desvia parte da verba externa para construir foguetes e atacar Israel, em vez de reconstruir a Faixa de Gaza

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 05h00

TEL-AVIV - Com o estabelecimento do cessar-fogo após 11 dias de guerra entre Israel e o Hamas, grupo radical islâmico que controla a Faixa de Gaza, a comunidade internacional enfrenta o desafio de impedir que as doações para ajudar na reconstrução de Gaza sejam usadas para outros fins. O financiamento do Hamas não é simples e o dinheiro usado para a construção de foguetes, pagamento de militantes e melhoria dos túneis usados pelo grupo entra na região de diversas formas.

Desde que a Autoridade Palestina (AP) perdeu o controle de Gaza para o Hamas, em 2007, ficou mais difícil controlar a destinação do dinheiro que entra no enclave. “A população palestina está dividida não apenas em termos geográficos (Cisjordânia e Gaza), mas também em termos políticos. A AP vê o Hamas e a Jihad Islâmica, que também opera em Gaza, como um perigo. Há um conflito entre os grupos e o dinheiro é parte disso. A AP quer controlar o dinheiro destinado a Gaza, mas o Hamas também”, explica Yoav Tenembaum, professor de ciência política da Universidade de Tel-Aviv.

Gaza recebe de forma lícita dinheiro de diferentes fontes: ajuda humanitária, projetos de outros países árabes no enclave e até mesmo ajuda de Israel. O Hamas costumava receber dinheiro vivo, com a autorização de Israel, por meio do Catar. Mas esse é um dos pontos que deverá ser mudado para ampliar o controle sobre a destinação da verba.

“Muitos países árabes estão sendo pressionados, até mesmo o Catar, para usarem outros mecanismos. Um dos primeiros passos é não dar dinheiro vivo e sim o projeto pronto. Está na agenda política de países árabes ajudar a população palestina de Gaza, mas estão estudando essa forma”, diz André Lajst, diretor executivo da StandWithUs Brasil e especialista em Oriente Médio, mestre em contraterrorismo e segurança nacional pelo Centro Interdisciplinar Herzliya (Israel).

O próprio governo de Israel fornece ajuda financeira desde 2007 a Gaza. Segundo a revista Forbes, a primeira transferência foi de US$ 51 milhões (R$ 258 milhões), feita para fortalecer a influência do presidente da AP, Mahmoud Abbas, e pagar os salários de cerca de 35 mil funcionários leais a ele.

A agência da ONU para os refugiados palestinos, UNRWA, por exemplo, levanta verbas para a região por meio de seu site e os pagamentos são feitos por meio do WorldPay – parte do Royal Bank da Escócia –, pelo Banco Árabe PLC em Gaza e o HSBC na Jordânia. A UNRWA tem um orçamento anual de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) para Gaza. 

No recente conflito entre o Hamas e Israel, o Banco Islâmico de Gaza foi destruído. De lá, segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), saía o dinheiro usado em ações terroristas. “O Hamas recebe financiamento de alguns países árabes e também de pessoas privadas dentro do mundo árabe, mas não apenas isso”, disse ao Estadão o porta-voz das IDF para a América Latina, Roni Kaplan.

O dilema de Estados Unidos, países da Europa e outros que prometeram ajudar na reconstrução do enclave está justamente em como evitar o desvio de verbas. “Por um lado, os atores querem enviar o dinheiro por meio da Autoridade Palestina, na Cisjordânia. Assim, a verba e qualquer outro item para ajudar Gaza seria canalizada por uma entidade reconhecida pela comunidade internacional. O problema é que o Hamas controla a Faixa de Gaza então fica praticamente impossível enviar ajuda sem que o Hamas seja envolvido”, afirma Tenembaum. 

Militantes são pagos com dinheiro do exterior

 Segundo as IDF, mais de 50% do orçamento do Hamas é aplicado no desenvolvimento de capacidades militares.  A verba que o grupo desvia de doações estrangeiras, além dos cerca de US$ 70 milhões que o Irã envia anualmente e as taxas cobradas da população são destinadas ao pagamento de militantes, construção de foguetes e melhoria dos túneis que os radicais usam para transportar armas, se esconder de ataques de Israel e até chegar ao lado israelense da fronteira para realizar sequestros e ataques.

“O Hamas foi construindo ao longo dos anos, por meio de engenheiros e especialistas, uma série de tecnologias que ajudaram a construir foguetes semi-industriais. Eles têm muita criatividade para ter acesso a ferro, por exemplo. Além de entrar ferro em Gaza por Israel, porque todo lugar precisa de ferro para a construção, também aproveitam parte do aço dos mísseis de Israel disparados contra Gaza. Mergulhadores também vão até navios ingleses naufragados na costa de Gaza durante a 1.ª Guerra e retiram bolas de canhão. O concreto que entra em Gaza é usado para construir esses túneis, mas a questão é que não tem como impedir essa entrada, pois Israel tem uma responsabilidade com Gaza”, conta Lajst.

Segundo autoridades militares de Israel, o Hamas também obtém verbas ao recolher US$ 14 de cada serviço elétrico em Gaza, US$ 27 de cada tonelada de fruta e US$1,50 de cada pacote de cigarros. 

O grupo deu uma declaração recente garantindo que “não desviará nem um centavo” da ajuda internacional para a reconstrução da Faixa de Gaza, destruída no recente conflito.

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