Hamas diz que não se compromete com cessar-fogo

O Hamas levantou dúvidas sobre quanto tempo irá durar o frágil cessar-fogo após seu líder espiritual ter dito que o grupo militante não se comprometeu com o pedido de Yasser Arafat pelo fim dos ataques contra Israel. A pressão internacional para a manutenção da trégua aumentou nesta terça-feira com o anúncio de que o diretor da CIA, George Tenet, deve seguir nesta quarta-feira para o Oriente Médio a fim de promover a cooperação na área de segurança entre israelenses e palestinos. Por sua vez, Israel informou ter amenizado algumas restrições impostas depois de um militante suicida ter atacado em frente a uma discoteca de Tel Aviv na última sexta-feira, suicidando-se e matando outras 20 pessoas, a maioria jovens israelenses. O Ministério da Defesa anunciou a abertura das fronteiras para o retorno de palestinos em viagem ao Egito e à Jordânia, a permissão para circulação de matérias-primas, inclusive gasolina, nos territórios palestinos, e a possibilidade de retorno de trabalhadores palestinos a seus postos de trabalho em uma área industrial nas proximidades do entroncamento de Erez. Tiroteios esparsos e confrontos ocorridos nesta terça-feira deixaram diversas pessoas feridas na Cisjordânia, mas, no geral, as passeatas marcando o 34º aniversário da Guerra dos Seis Dias de 1967, quando Israel capturou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, foram pacíficas. Porém, na noite desta terça-feira, um bebê israelense de cinco meses ficou gravemente ferido depois que palestinos atiraram pedras contra um carro na Cisjodânia. De acordo com os médicos, a criança sofreu um grave ferimento na cabeça. Autoridades israelenses reconheceram a relativa calma, mas disseram que Israel ainda exige que Arafat prenda os envolvidos no planejamento de ataques suicidas à bomba e ponha fim ao incitamento antiisraelense. "Não há dúvidas de que alguns passos positivos foram dados, mas eu diria, necessários, mas insuficientes", afirmou Raanan Gissin, um assessor do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon. Arafat pediu o cessar-fogo no sábado, fazendo com que Israel suspendesse retaliações pelo atentado suicida à bomba de sexta-feira à noite. Num comunicado conjunto emitido na noite de segunda-feira em nome da ala militar do Hamas e do movimento político Fatah, de Arafat, foi dito que o cessar-fogo seria respeitado.Mas líderes do Hamas - cujo apoio é visto como crucial para o sucesso de uma trégua - rapidamente passaram a contestar a idéia. "Quando falamos a respeito do chamado cessar-fogo, isso significa entre dois exércitos", afirmou o xeque Ahmed Yassin, o líder espiritual do Hamas, à Associated Press. "Não somos um exército. Somos pessoas que se defendem e trabalham contra a agressão."Yassin uniu-se a cerca de 2.000 palestinos que marcharam pacificamente em Gaza para marcar o aniversário da guerra de 1967. Manifestantes gritavam "A intifada (levante) continuará até a vitória!" Uma passeata na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, também transcorreu sem nenhum incidente. Um porta-voz do Hamas em Gaza, Mahmoud Zahar, recusou-se a dizer diretamente se novos atentados estavam sendo planejados. Mas, afirmou ele, "as pessoas estão convencidas de que isso será uma medida efetiva para convencer os israelenses a partir".O Hamas não aceita a existência de um Estado judeu. Ghassan Khatib, um analista político palestino que esteve no encontro com representantes do Hamas e da Fatah, disse que os participantes "falaram de uma forma que expressou entendimento das circunstâncias que levaram Arafat a fazer a declaração". A Jihad Islâmica, um grupo militante que não participou do encontro, indicou que daria uma chance à trégua. "Estamos respeitando todas as decisões tomadas por qualquer movimento palestino", disse Nafez Azam, porta-voz da Jihad Islâmica. O líder da Fatah na Cisjordânia, Marwan Barghouti, disse que o cessar-fogo se aplica apenas às áreas sob pleno controle palestino. Nos demais locais, afirmou ele, "a resistência à ocupação é um direito legítimo dos palestinos". Os palestinos há muito sustentam que são responsáveis pela segurança apenas nas áreas que controlam, em parte para pressionar Israel a entregar mais território.Israel rejeita a idéia, especialmente quando militantes entram em áreas controladas pelos israelenses vindos de locais sob controle palestino. Entre os esforços diplomáticos para manter a trégua, o ministro alemão de Relações Exteriores, Joschka Fischer, foi ao Egito e à Jordânia buscando ajuda para estabilizar o cessar-fogo que se seguiu a um apelo pessoal seu a Arafat. Em Washington, uma autoridade da administração Bush disse que Tenet, o chefe da CIA, viajará nesta quarta-feira ao Oriente Médio. Tenet já participou de encontros no passado, visando restaurar a cooperação de segurança entre Israel e os palestinos. Mesmo assim, os confrontos prosseguiram apesar da trégua. Ao norte de Ramallah, soldados israelenses abriram fogo nesta terça-feira com balas de aço revestidas de borracha contra atiradores de pedras palestinos depois de o Exército ter-se recusado a deixá-los atravessar um posto de checagem, disseram testemunhas. Dez palestinos ficaram feridos.O Exército alegou ter disparado contra cerca de 600 manifestantes para dispersá-los. Na cidade cisjordaniana de Hebron e em suas proximidades, pelo menos três palestinos, inclusive um policial, ficaram feridos em choques com forças israelenses. Ainda na Cisjordânia, Ashraf Mahmoud Bardawil, um ativista da Fatah de 27 anos, ficou gravemente ferido quando seu carro explodiu na região de Tulkarem. O grupo acusou o Estado judeu de ter perpetrado o ataque.

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