Hamas e Fatah terão futuro incerto depois da guerra

Os palestinos estavam divididos política e geograficamente entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza até o início da ofensiva israelense. Os habitantes de Ramallah, Nablus e Jenin eram governados pela Autoridade Palestina, controlada pelo secular Fatah. Já os moradores do território palestino que faz fronteira com o Egito estavam nas mãos do religioso Hamas. Com o fim dos confrontos, poucos conseguem apostar sobre o que emergirá das ruínas dos bombardeios de Israel em Gaza.As duas organizações são diferentes na forma como enxergam o futuro dos palestinos e de Israel. O Fatah já enfrentou os israelenses no passado. Mas, desde o fim da última intifada, a organização, que reconhece a existência do Estado israelense, decidiu deixar de lado o seu lado belicoso e passou a administrar o seu território, investindo especialmente em segurança interna. A polícia foi treinada pelos americanos e hoje cidades como Jenin, antes ligadas à violência, se tornaram símbolos de estabilidade quando comparadas à Gaza. De uma certa forma, a Cisjordânia passou a ser administrada como uma grande prefeitura. O Hamas, desde que tomou o poder na Faixa de Gaza, é acusado se preocupar mais em contrabandear armamentos do que em desenvolver o território palestino. O grupo foi dominado pelo seu braço militar, deixando a ala política de lado, segundo afirma o professor Samir Awad, da Universidade Bir Zeit, na Cisjordânia. Para complicar, alguns líderes do grupo vivem no exílio e não conhecem a situação real em Gaza.Além dos dois grupos, a população palestina não tem muita opção. Em 2005, elegeu Mahmoud Abbas, do Fatah, para a presidência. No ano seguinte, o Hamas venceu as eleições legislativas. Antes do conflito em Gaza, na última pesquisa feita com os palestinos, em agosto de 2008, o grupo secular venceria eleições legislativas com 43% contra 29% dos islâmicos, de acordo com o Centro Palestino para Política e Pesquisa. Nenhum outro partido possui porcentual relevante. O líder político mais popular entre os palestinos, diz o levantamento, é Marwan Barghouti, da ala jovem do Fatah, que está preso em Israel. Abbas vem em segundo, seguido pelo ex-premiê Ismail Hanyieh, do Hamas, e pelo atual primeiro-ministro, Salam Fayyad, que é mais conceituado no exterior do que nos territórios.Os números indicam que as duas organizações ainda dominam o cenário político palestino. Indagado pelo Estado sobre o motivo do não surgimento de novas facções, o intelectual palestino Ali Jarbawi explicou que esse é um processo demorado, de décadas. "O Fatah tem mais de 40 anos, conseguiu uma legitimidade. O Hamas também conquistou sua legitimidade no campo religioso."Atualmente, é visível que a administração do Fatah evoluiu em lugares como Ramallah, onde as cenas de destruição de poucos anos atrás contrastam com a organização da cidade durante o governo atual, de Abbas. Mas, segundo Jarbawi, "os palestinos culpam o Fatah por não conseguir criar um Estado. Acham que, no fundo, nada é feito para acabar com os assentamentos judaicos. Ramallah pode estar bem, mas olhe ao redor. Israel mantém a ocupação e os palestinos não aceitam viver assim."

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