Hamas enfrenta dilemas da vitória inesperada

As eleições que produziram o inesperado triunfo do Hamas colocaram a Palestina e Israel num terreno não mapeado e pouco propício aos exercícios de futurologia. Mesmo assim, o professor Fouad Ajami, diretor do programa de Oriente Médio da prestigiosa Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade de John Hopkins, em Washington, arriscou fazer algumas previsões nesta entrevista que concedeu ao Portal. "Mesmo tendo dito que não fará parte de um governo de coalizão com o Hamas, o Fatah, que é o partido principal da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), acabará aceitando, por algumas razões práticas: é comandado por um grupo decadente e corrupto que não sabe viver longe do poder. Por outro lado, sem sua presença os palestinos não terão diálogo internacional e serão economicamente estrangulados", disse Ajami. "Mas o Hamas não renunciará ao objetivo de destruir o Estado de Israel, porque é formado por fanáticos religiosos e acabar com Israel é dogma do partido e uma forma de manter sua pureza", explicou. "Como membro do novo governo, no entanto, o Hamas terá que fazer ajustes e um dos ajustes será abandonar o terrorismo". Escroques e crentesEmbora esta seja uma evolução potencialmente promissora para todas as partes interessadas e Ajami concorde com a avaliação de outros especialistas, segundo a qual a vitória do Hamas não foi ditada pelo ódio dos palestinos a Israel, mas pela repulsa à corrupção e à incompetência do governo da Autoridade Palestina, ele prevê um período de muita turbulência à frente. "A eleição foi uma disputa entre os escroques do Fatah e os crentes do Hamas", afirmou o professor. "Para seu próprio choque e espanto, os crentes venceram e agora terão que lidar com as conseqüências da desagradável surpresa da vitória." Segundo Ajami, o Hamas, um grupo que existe para fazer oposição permanente, terá agora que mostrar aos palestinos a que veio no exercício de funções que afetam o cotidiano das pessoas. Na realidade, a popularidade do Movimento Islâmico da Resistência Palestina, ou Hamas, deriva em parte dos serviços que presta à população. O partido já opera escolas, a maior universidade dos territórios palestinos, um sistema de saúde pública, e tem, portanto, experiência administrativa no nível local. "O entendimento possível entre Fatah e Hamas já foi mais ou menos enunciado por Mohamed Dahlan", observou Ajami, referindo-se ao homem forte da máquina da OLP. "O Fatah ficará com os ministérios das Relações Internacionais e Finanças e o Hamas, que não se preparou para governar, cuidará da água, dos esgotos, da eletricidade e da religião". De acordo com professor, esse é o único arranjo que permite respeitar o resultados das eleições sem produzir o estrangulamento financeiro dos palestinos, que virá com certeza se o Hamas assumir qualquer posição-chave. Cerca de metade do orçamento da Autoridade Palestina é feito por dotações vindas de Israel e a entidade depende da ajuda da comunidade internacional para manter-se solvente.Transição ou terrorismoEm Israel, a vitória do Hamas "reforçará os que acham que o país deve adotar soluções unilaterais, traçar o seu próprio rumo e ignorar a sociedade palestina enquanto ela não estiver preparada para fazer o grande compromisso necessário para a paz e o convívio na região", disse o especialista. Os óbvios dilemas que o desfecho das eleições palestinas apresentam para a estratégia do presidente George W. Bush de democratização do Oriente Médio não devem, na opinião de Ajami, fazer os EUA a mudar de curso. "É verdade que eleições democráticas provavelmente levarão a novas vitórias de islamitas, mas esta é uma região politicamente primitiva, nas quais os regimes autoritários e ditatoriais estão tão entranhados que apodreceram", disse. "Os americanos simplesmente terão agora que ter a coragem de suas convicções". Segundo ele, poderá levar três, quatro, cinco eleições para se chegar a um novo equilíbrio em cada país. "Será uma transição muito difícil", previu Ajami. "Mas o governo dos Estados Unidos precisa apostar na abertura da vida política dessas sociedades, porque a alternativa é o 11 de setembro".

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