Lourival Sant'Anna/AE
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Hamas reprime protesto na Faixa de Gaza

Grupo de ativistas, porém, resiste e segue com manifestação ao estilo da ''primavera árabe''

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / FAIXA DE GAZA

A polícia do Hamas tentou ontem, sem sucesso, reprimir uma manifestação na Praça do Soldado Desconhecido, em Gaza. Cerca de 200 pessoas reuniram-se para apoiar a reconciliação entre o grupo islâmico e o movimento moderado Fatah, expulso da Faixa de Gaza pelo Hamas numa breve guerra civil em 2007. Os policiais fizeram um cordão de isolamento da praça, mas os manifestantes romperam o bloqueio, gritando: "O povo e a polícia são um só". Os policiais bateram em alguns manifestantes com cassetetes, mas cederam diante da presença de jornalistas estrangeiros.

"Gritamos isso para constranger a polícia, e funcionou", disse sorrindo a ativista Ebaa Rezeq, de 20 anos, estudante de letras. "Informamos às autoridades sobre a manifestação 48 horas antes, como prevê a lei", relatou Ebaa. Mas, na prática, o Hamas não tem tolerado manifestações. O movimento contra a divisão entre Fatah e Hamas e a favor da reconciliação é a versão palestina da "primavera árabe", a onda pró-democracia que tem sacudido o Oriente Médio e Norte da África. Implica uma crítica indireta ao Hamas e ao Fatah, por sua ruptura, e traz implícitas reivindicações de maior liberdade de expressão e atuação política.

"A divisão Fatah-Hamas reduziu os espaços políticos", explica Moheeb Shaath, engenheiro de 31 anos, gerente na Faixa de Gaza da organização não governamental Sharek (Participe), que também faz parte do movimento. "Uma corrente extremista ficou no controle de Gaza, excluindo os grupos que pensam de forma diferente. Com a reconciliação, cada um poderá expressar suas opiniões, mesmo se criticar os dois lados."

Criada em 2004 com patrocínio da União Europeia e da Agência Suíça de Desenvolvimento, a Sharek promove eventos esportivos, colônias de férias, aulas de reforço escolar, cursos de capacitação, seminários e debates para crianças e jovens na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Em março do ano passado, o Hamas invadiu seu escritório em Gaza e confiscou seus computadores. Em novembro, o procurador-geral ordenou o fechamento temporário da ONG, enquanto a investiga pelos crimes de violar tradições religiosas (como o uso do véu, a separação entre garotas e rapazes e a obrigação das mulheres de andar acompanhadas por homens), introduzir costumes ocidentais e colaborar com o governo da Cisjordânia (do Fatah).

"O Hamas não tenta entender o outro lado", critica um líder do movimento Juventude de Gaza Rompe, conhecido pelo codinome "Abu Yezan". "Segundo sua mentalidade, quem não está com ele está contra ele." Abu Yezan, que diz ter sido detido para interrogatório "mais de 20 vezes", e é filho de um dirigente do Hamas e de uma líder do Fatah, resume a situação dos palestinos: "Se falarmos mal de Israel não podemos viajar; se falarmos mal do Fatah não arranjamos emprego (na Autoridade Palestina) e se falarmos mal do Hamas vamos para a cadeia". O grupo foi criado em dezembro, para lutar pela reconciliação do Fatah e do Hamas.

Condenação

MOHEEB SHAATH

DIRETOR EM GAZA DA ONG SHAREK

"A divisão Hamas-Fatah reduziu os espaços políticos. Uma corrente extremista ficou no controle de Gaza, excluindo os grupos que pensam de forma diferente"

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