Hamas sem coalizão facilita retórica israelense

O fracasso dos esforços do grupo radical islâmico Hamas para formar uma coalizão ampla deve tornar sua tarefa à frente do governo palestino ainda mais complicada, e ainda facilitar a atitude de Israel de classificar o novo governo como ?terrorista?. Após a recusa das demais facções palestinas em participar de uma coalizão, o Hamas deve formar sozinho o próximo governo palestino - e sofrer pressões de forças poderosas internas e externas. A recusa do partido de reconhecer Israel está no centro de seu isolamento. O Hamas argumenta que reconhecer Israel seria legitimar a ocupação no território palestino. E o grupo extremista não considera como território ocupado apenas a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, mas todo o território de Israel. Essa foi a questão central que levou o partido Fatah a dizer que seria impossível participar do novo governo. O Fatah dominou a política palestina por décadas até ser derrotado pelo Hamas nas eleições parlamentares de janeiro. Obstrução Com o Fatah na oposição, o grupo deve fazer de tudo para obstruir o novo governo. Alguns membros do Fatah mal conseguem disfarçar seu desejo de ver o projeto do Hamas fracassar, o que abriria o caminho para o retorno do grupo ao poder. Uma coalizão ampla também daria ao novo governo uma imagem mais moderada. As relações com americanos e europeus - que consideram o Hamas uma organização terrorista - poderiam ser um pouco mais fácil. Eles ameaçaram cortar os fluxos importantes de ajuda financeira para um governo liderado pelo Hamas, a menos que o partido modere sua atitude em relação a Israel. Os líderes do Hamas dizem confiar que qualquer corte de ajuda do Ocidente será compensado com contribuições dos mundos árabe e islâmico. Mas muitos palestinos somente acreditarão nisso quando o dinheiro começar a chegar. Administração terrorista Os israelenses estão alarmados com a ameaça representada pelo crescimento do Hamas. Seus homens-bomba já atacaram diversas vezes em Israel. O Hamas vem respeitando um cessar-fogo por mais de um ano, apesar das freqüentes provocações do exército israelense, e é pouco provável que retome a ofensiva agora. Mas as declarações de seus líderes ainda mantêm o tom radical e deixam claro que o grupo ainda deseja a destruição de Israel como objetivo final, talvez daqui a algumas gerações. Israel reclama da ?ausência de um parceiro para a paz?, o que pode trazer vantagens para a sua própria posição. O projeto do partido Kadima, favorito nas eleições israelenses do próximo dia 28, é estabelecer as fronteiras definitivas do país. O esquema envolve a consolidação da presença israelense em grandes porções da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Os palestinos reclamam de que quase todas as exigências do Ocidente por moderação são dirigidas a eles, enquanto as ações israelenses que podem ser extremamente prejudiciais a qualquer perspectiva de paz quase sempre passam em branco. Mas se houver, eventualmente, alguma objeção aos planos de Israel para a Cisjordânia, os israelenses argumentarão que sua imposição de uma ?solução unilateral? é razoável. Eles dirão que não se pode esperar que eles negociem acordos com o ?regime pária? do Hamas.

Agencia Estado,

20 Março 2006 | 12h13

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