Hamas toma controle total de Gaza e executa rivais detidos

Milícias tomam último bastião de Abbas, sua residência e instalações no litoral

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

O grupo islâmico Hamas conquistou o controle total da Faixa de Gaza nesta quinta-feira, 14, depois de capturar o último reduto das forças fiéis ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, do partido laico Fatah. O episódio é um novo capítulo na disputa de poder entre os dois grupos rivais. Nesta quinta-feira, o presidente Abbas anunciou que dissolverá o governo palestino controlado pelo Hamas e abandonará o gabinete de coalizão formado com o grupo islâmico. Testemunhas disseram que militantes do Hamas executaram a sangue-frio membros do Fatah capturados ou que se renderam após horas de combates. Com a captura do complexo presidencial do Fatah - o último bastião de Abbas na região - e de instalações situadas no litoral mediterrâneo de Gaza, o Hamas consolida o controle do território de 330 quilômetros quadrados e um 1,5 milhão de habitantes, informaram fontes do grupo. A conquista vem após cinco dias de sangrentos combates. Abbas estava em sua residência na Cisjordânia no momento da queda do complexo presidencial. As Brigadas de Ezzedin al-Qassam, braço armado do Hamas, também tomaram pouco antes da meia-noite de quinta-feira (horário local) a Saraya, complexo de edifícios e instalações dos órgãos de segurança da Autoridade Nacional Palestina (ANP), aparentemente sem deixar vítimas. Também não foram registradas baixas durante a invasão do complexo presidencial de Abbas, vigiado pela Guarda Presidencial, que negociou sua rendição. Por volta do meio-dia desta quinta-feira (horário local), o Hamas já havia tomado o quartel central da Polícia Secreta, a sede do Serviço de Segurança Preventiva e, horas depois, o Serviço de Inteligência Militar da ANP, todos localizados na Cidade de Gaza. Para os combatentes do Hamas, a captura do complexo da Segurança Preventiva foi motivo de celebração. Eles hastearam a bandeira verde do Hamas no prédio, fizeram disparos para o alto e distribuíram chocolates na vizinhança. "Allahu Akbar (Deus é Grande)", gritavam usando um alto-falante. Mais de 50 agentes de segurança deixaram o edifício e foram imediatamente presos pelos radicais, que sentem uma especial aversão contra a Segurança Preventiva, cuja sede era reduto do Fatah desde o estabelecimento da Autoridade Palestina, em 1994. Para os membros do Hamas, o complexo era um símbolo de submissão, pois vários de seus líderes e militantes foram detidos no local e, segundo os radicais, "torturados e barbeados", o que representa uma humilhação para os fundamentalistas islâmicos. A milícia Ezzedine al-Qassam também capturou o complexo do serviço de inteligência em Gaza e eufóricos militantes colocaram a bandeira do Hamas no topo do prédio. Os combatentes islâmicos apreenderam nos escritórios dos organismos de segurança grande quantidade de armas, jipes, mísseis antitanque russos do tipo "Law" e mísseis antiaéreos do tipo "Strela", assim como computadores e documentos. Os milicianos também invadiram a residência do coronel Mohammed Dahlan, assessor de segurança de Abbas, que se encontra com o presidente, na cidade cisjordaniana de Ramallah. Resposta de Abbas Abbas decretou estado de emergência nos territórios palestinos, e destituiu o primeiro-ministro, Ismail Haniyeh, do Hamas, ao dissolver o governo de união que havia sido formado pelos islamitas do Hamas e os nacionalistas do Fatah, há três meses. Porta-vozes do Hamas rejeitaram a decisão do presidente, e a declararam "ilegal". Ainda não se sabe como a decisão de Abbas poderá ser implementada, uma vez que o presidente se encontra na Cisjordânia, e todos os organismos oficiais de Gaza estão sob o controle dos islamitas. O presidente, que tem o poder para dissolver o governo, informou que designará um primeiro-ministro independente para o cargo. O estado de emergência decretado por Abbas deverá ser ratificado pelo Conselho Legislativo palestino, caso se prolongue por mais de 30 dias. O Hamas conta com ampla maioria no Conselho, devido à sua vitória nas eleições de janeiro de 2006. A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, foi a primeira personalidade a ligar esta noite para o presidente Abbas, para expressar-lhe a solidariedade dos Estados Unidos. Execuções Amjad, um palestino que mora em um prédio diante do complexo da Segurança Preventiva, disse ter visto os combatentes executarem diante de mulheres e crianças pelo menos sete rivais que haviam se entregado. "Eles estão executando um a um", disse Amjad por telefone à Associated Press. "Eles carregaram um dos presos nas costas, o colocaram no chão e atiraram", disse Amjad, acrescentando que os combatentes ignoraram os apelos dos moradores. Uma emissora de TV do Hamas mostrou imagens de membros do Fatah abandonando o prédio da Segurança Preventiva com as mãos para o alto, alguns apenas com roupas íntimas. Um médico do Hospital Shifa, que examinou os corpos de alguns dos 18 mortos no prédio, disse que eles haviam levado tiros na cabeça a curta distância. Abu Zuhri, porta-voz do Hamas, negou que seu grupo esteja realizando execuções. "Qualquer um que foi morto morreu nos combates", assegurou. Mas a milícia Ezzedine al-Qassam, braço armado do Hamas, divulgou um comunicado dizendo que havia "executado" Samih al-Madhoum, das Brigadas Mártires de Al-Aqsa, aliado do chefe das forças de segurança do Fatah, Mohamad Dahlan. Segundo moradores de Gaza, os militantes desfilaram nas ruas com o corpo de Madhoun. Alguns líderes religiosos do Hamas divulgaram uma lista de membros do Fatah que estão "condenados à morte". O governo dos EUA acusou nesta quinta-feira o Hamas de cometer "atos do terror".

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