Hariri é acusado de bancar radicais

Deputado e filho do ex-premiê do Líbano financiou Fatah Al-Islam para fazer frente ao Hezbollah, dizem refugiados palestinos

Gustavo Chacra, BEIRUTE, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2030 | 00h00

Desde maio, quando tiveram início os confrontos entre o Exército do Líbano e o grupo extremista sunita Fatah al-Islam no campo de refugiados palestinos Naher el-Bared, perto de Trípoli, no norte do país, uma dúvida intriga os libaneses: quem, afinal, bancou o surgimento desse grupo, responsável pela pior onda de violência no Líbano desde que a paz foi estabelecida no país, em 1990? Apenas nos últimos dois meses, mais de 240 pessoas morreram, sendo 120 soldados - entre eles um brasileiro -, 85 militantes e o restante, civis. A saída para descobrir quem apóia o Fatah al-Islam talvez possa ser encontrada em Badawi, o campo de refugiados palestinos para onde foram levados os moradores de Naher el-Bared. O repórter do Estado passou um dia visitando esse campo, que lembra uma favela. E quase todos os palestinos entrevistados afirmam que o grupo radical recebia dinheiro diretamente de Saad Hariri - filho de Rafic Hariri, morto em um atentado em 2005 - e um dos principais líderes da coalizão de governo. Todos no Líbano - incluindo os palestinos - dizem estar ao lado do Exército e contra o Fatah al-Islam. Não há voz dissonante no país em suporte do grupo, que surgiu misteriosamente na terra dos cedros. O que se sabe é que a organização conta com membros de diferentes nacionalidades, como sauditas, sudaneses, iemenitas, iraquianos e paquistaneses. Há simpatia pela Al-Qaeda, mas não se sabe até que ponto chega o elo. A maioria, especula-se, seria composta por jihadistas veteranos da Guerra do Iraque. A divergência é mesmo sobre como e quem trouxe esse grupo para o Líbano. Em sintonia com a administração de George W. Bush, a versão da coalizão de governo, composta pela maioria dos sunitas e drusos e cerca da metade dos cristãos, afirma que os militantes do Fatah al-Islam são apoiados pelo regime sírio de Bashar al-Assad. Os militantes, dizem eles, teriam penetrado no Líbano através da fronteira com a Síria. O objetivo seria estabelecer o caos no país, "obrigando" os sírios a intervirem. GUERRA FRIA REGIONAL Já a oposição, liderada pelos xiitas do Hezbollah e da Amal e pelo líder cristão Michel Aoun, conta uma história diferente, que pela primeira vez veio à tona em reportagem da revista New Yorker, escrita por Seymour Hersh, um dos mais conceituados jornalistas americanos. O Fatah al-Islam faria parte de uma estratégia da Arábia Saudita e dos sunitas aliados do premiê Siniora e de Saad Hariri - com o possível apoio de membros do governo americano ligados ao vice-presidente Dick Cheney - para derrotar o Hezbollah. O objetivo seria montar uma milícia sunita para fazer frente aos poderosos e bem armados membros da organização xiita, que contam com o apoio da Síria e do Irã. Mais do que isso, o confronto entre sunitas e xiitas no Líbano estaria dentro de um mais amplo confronto no Oriente Médio, que também envolve o Iraque, além de uma guerra fria entre os regimes sunitas de Cairo, Amã e Riad, com o apoio de Washington, contra os xiitas de Teerã e os alauítas de Damasco. Nos dois casos, há perguntas sem respostas. Por que, como diz o governo, a Síria apoiaria um grupo que é inimigo do Hezbollah, justamente o principal aliado de Damasco no Líbano? E por que Siniora, um político moderado, colocaria em risco a sua reputação ao lidar com o radicalismo islâmico? E qual o interesse de Hariri trazer a Al-Qaeda para o Líbano? Em entrevistas com palestinos que vieram de Naher el-Bared, todos afirmaram que não há envolvimento sírio no Fatah al-Islam. Mais do que isso, quase todos disseram que o grupo recebia dinheiro diretamente de Saad Hariri. A versão dos palestinos é quase idêntica à da oposição libanesa. "O Hariri dava o dinheiro. O problema é que eles começaram a entrar em choque porque o Fatah al-Islam passou a defender um Estado islâmico no Líbano, e o Hariri queria apenas que eles lutassem contra o Hezbollah. E decidiu parar de dar dinheiro. Os membros do Fatah al-Islam foram ao Banco Mediterranee, do Hariri, e acabaram tentando assaltar para vingar-se. Acabaram matando dois soldados, e o governo decidiu acabar com essa estratégia do grupo", afirmaram os desempregados Ahmad Youssef, 36, e Muhammad Ahmad Hagi, 29. Ali Fayad, 40, concorda com a versão. "Eles eram trazidos por membros do Parlamento aliados de Hariri e por sauditas através do aeroporto", afirmou. Ali Said Muhammad também iniciou a entrevista afirmando que era Hariri quem bancava o Fatah al-Islam. Mas depois se arrependeu e afirmou que era apenas um "homem importante" em Beirute. Bem longe de Badawi, em um shopping em Ashrafyeh, bairro cristão de Beirute, um dos chefes da inteligência libanesa - como muitos outros que dizem ter o mesmo cargo - se reuniu com o repórter do Estado e contou a mesma versão dos refugiados. A assessora de Saad Hariri, Amal Mudallali, negou a acusação, dizendo que se trata "de campanha da oposição contra nós". De qualquer maneira, o Líbano vive hoje em meio a teorias de conspiração. Curiosamente, nenhuma aponta o envolvimento de Israel nos recentes acontecimentos no país - no mundo árabe, é comum acusar Israel por tudo, até pelo crescimento no número de infectados pelo HIV. Dessa vez, os dois lados dizem que Israel quer apenas estabilidade na sua fronteira. A culpa pelo que se passa no Líbano seria ou dos aliados de Damasco ou dos de Riad. Cada um acredita na teoria que quiser.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.