Valdrin Xhemaj/EFE/EPA
Valdrin Xhemaj/EFE/EPA

Hashim Thaçi, de chefe guerrilheiro a presidente do Kosovo

Acusado nesta quarta-feira, 24, de crimes de guerra e contra a humanidade, político alcançou a independência do país em 2008

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 17h32

O presidente do Kosovo, Hashim Thaçi, acusado nesta quarta-feira, 24, de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, é um ex-guerrilheiro político que alcançou a independência em relação à Sérvia em 2008. 

Há duas décadas, Thaçi, 52 anos, está sob holofotes no cenário político do Kosovo. 

Ele foi um comandante emblemático da guerrilha albanesa-kosovar (UCK), que lutou contra as forças sérvias durante o conflito de 1998-1999, para se tornar primeiro-ministro (2008-2014) e depois ministro das Relações Exteriores, em 2014. 

Alto, cabelos grisalhos, elegante, Hashim Thaçi é presidente do Kosovo desde abril de 2016. Tornou-se uma figura política após o conflito e concluiu um histórico acordo de "normalização das relações" entre o Kosovo e a Sérvia em abril de 2013. 

No entanto, o diálogo entre Belgrado e Pristina foi interrompido no final de 2018 e a acusação coincide com as iniciativas da UE e dos Estados Unidos para retomar o diálogo. 

O acordo de 2013 permitiu ao Kosovo assinar outro com Bruxelas para "estabilização e associação", o primeiro passo no longo caminho para adesão ao bloco.

"Não temos nada a esconder"

Em entrevista à AFP antes de se tornar presidente, Thaçi se sentia "um símbolo da unidade de todos os cidadãos do Kosovo". 

Ele também dizia apoiar totalmente o tribunal especial de Haia para julgar crimes de guerra cometidos pelos guerrilheiros do Kosovo. 

"A luta no Kosovo e na UCK foi um combate justo e limpo. Ninguém pode reescrever a história", afirmou. 

"Não temos nada a esconder, responderemos a todas as demandas, pois apoiamos totalmente a ideia de que a justiça seja feita", insistiu. 

Uma série de ataques da OTAN aos sérvios encerrou a guerra de independência do Kosovo em 1999, um conflito que matou 13 mil pessoas, a maioria delas albanesa-kosovares. 

Seus apoiadores afirmam que ele é o único estadista capaz de dialogar com a comunidade internacional e a fazer o país ingressar na UE e na OTAN. 

A popularidade de Thaçi atingiu seu auge quando o Kosovo proclamou sua independência em 2008. Mas em 2010, sua reputação foi duramente atingida, quando um relatório do Conselho da Europa o mencionou ao lado de outros funcionários do Kosovo em um caso de tráfico de órgãos em campos de detenção para sérvios e suspeito de colaborar com Belgrado. 

Thaçi rejeitou firmemente essas acusações ligadas a um período em que ele era o líder da guerrilha. 

Da resistência pacífica à guerrilha 

Nascido em 24 de abril de 1968 na vila de Brocna, na região de Drenica (centro), berço do separatismo albanês de Kosovo, Thaçi participou de um movimento de "resistência passiva" contra as autoridades de Belgrado desde o início dos anos 90. 

Convencido de que essa política promovida pelo "pai da nação" albanesa-kosovar, Ibrahim Rugova, não produziria resultados, juntamente com outros ativistas pró-independência, ele criou um movimento de guerrilha em meados daquela década. 

Condenado por terrorismo à revelia a 22 anos de prisão por um tribunal sérvio, refugiou-se na Suíça, onde estudou história. 

Em 1997, ele retornou ao Kosovo e, com outros líderes da independência, fundou a UCK, que em maio de 1998 controlava um quarto do território kosovar. Thaçi tinha 30 anos. 

Durante o conflito, sob o pseudônimo "A Serpente", na clandestinidade se tornou "primeiro-ministro" do "governo provisório" do Kosovo. 

Em 1999, apareceu no cenário político internacional na conferência de paz em Rambouillet (França), onde, com o apoio dos Estados Unidos, se afirmou como o principal negociador albanês-kosovar. 

Casado e com um filho, Thaçi fala inglês e alemão. /AFP

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