REUTERS/Enrique de la Osa
REUTERS/Enrique de la Osa

Havana ainda guarda marcas do confronto com Washington

Apesar dos sinais da Guerra Fria, cubanos veem com esperança o restabelecimento das relações com os EUA

Claudia Trevisan / Enviada Especial, Havana, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 01h00

O entorno da Embaixada dos EUA em Havana é um microcosmo das hostilidades que marcaram o relacionamento entre os dois países desde 1961, quando Washington rompeu relações com o governo de Fidel Castro. A praça diante do edifício é chamada de Tribuna Anti-Imperialista e carrega a memória do período em que os cubanos se manifestavam contra a “agressão ianque” e os americanos tentavam desestabilizar o regime comunista.

O muro ao lado da embaixada traz o slogan “Pátria o Muerte”, de um lado, e “Venceremos”, de outro. A poucos metros foram erguidos 138 mastros de bandeiras, que segundo o governo cubano eram uma resposta à “torpe soberba” dos EUA. Erguidos em 2006, os mastros foram ocupados por bandeiras negras que cumpriam a função de obstruir a visão de letreiros luminosos com notícias do dia que apareciam no alto do edifício. 

Situação precária. Os países não tinham relações diplomáticas, mas em 1977 fecharam um acordo para abertura de seções de interesses. No dia 17 de dezembro, os presidentes Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a decisão de restabelecer laços diplomáticos e reabrir as embaixadas.

“O povo cubano ganhou a batalha”, disse José Antonio González, de 52 anos, que vive em um dos edifícios diante da Tribuna Anti-Imperialista. “Poucos povos suportaram uma hostilidade tão grande como nós suportamos nos últimos 50 anos”, afirmou seu vizinho, Miguel Ángel Fernández, de 78.

Mesmo com o orgulho da história nacional, ambos reconhecem que a situação econômica de Cuba é precária e veem na reaproximação um sinal de mudanças. “Ela trará investimentos e comércio”, diz González. “Também abrirá caminho para o acesso a bens de consumo que hoje estão distantes da maioria dos cubanos”, acredita Fernández.

Outro vizinho, André Hernández, de 55 anos, observa que o poder aquisitivo ainda é muito baixo, mesmo para aqueles que trabalham por conta própria, como ele e González.

A Tribuna Anti-Imperialista é uma praça construída no início da década passada, depois que o então menino Elián González se transformou em um ator involuntário do enfrentamento entre os cubanos que emigraram para os EUA e os que permaneceram na ilha.

Os que foram logo depois da Revolução de 1959 costumam ser chamados de “gusanos” (vermes) pelos aliados do governo. Milhares de outros foram depois do fim da União Soviética, que deu início a uma fase de fome, escassez e precariedade que os cubanos batizaram de “período especial”.

Elián tinha 8 anos quando tomou uma embarcação clandestina com sua mãe e outras 12 pessoas na direção da Flórida, no ano 2000. O barco naufragou, causando a morte de dez passageiros, entre os quais a mãe de Elián. Durante meses, sua guarda foi objeto de disputa entre seu pai e a comunidade de exilados cubanos em Miami. Por decisão da Justiça americana, Elián acabou voltando a Cuba e entregue a seu pai.

No fim da praça está a estátua do menino no colo de José Martí (1853-1895), considerado o herói da independência de Cuba em relação aos espanhóis. Nela, Martí aponta de maneira acusadora para o edifício da Embaixada dos EUA.

Apesar das hostilidades das últimas cinco décadas, é difícil encontrar um cubano que não tenha algum parente vivendo nos EUA. A ilha tem 11 milhões de habitantes e há pelo menos outros 2 milhões vivendo do outro lado do Estreito da Flórida, muitos dos quais em Miami. As remessas enviadas pelos parentes nos EUA são uma das principais fonte de divisas de Cuba.

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