Alejandro Ernesto/Efe
Alejandro Ernesto/Efe

'Havana quer se ver livre dos insatisfeitos', diz especialista

Professor Jaime Suchlicki vê com ceticismo a iniciativa do governo cubano de mudar regras para viagens

Entrevista com

Gustavo Chacra, Correspondente em Nova York, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2012 | 03h02

NOVA YORK - Poucos cubanos conseguirão bancar o passaporte e, num primeiro momento, talvez tentem ir a países latino-americanos para depois procurar uma forma de entrar nos Estados Unidos. Esta é a avaliação do professor Jaime Suchlicki, diretor do Instituto de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade Miami, que vê com ceticismo a iniciativa. Abaixo, leia trechos da entrevista ao Estado.

Veja também:

linkCuba diminui restrições a viagens, mas mantém brecha para barrar opositores

tabela ESPECIAL: Reformas em Cuba

forum CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

Estado: Qual o objetivo do governo cubano com essa medida?

Jaime Suchlicki: Primeiro, a lei foi motivada por uma pressão interna de cubanos, que estão insatisfeitos com o regime. Em segundo lugar, o governo de Cuba quer justamente se ver livre dos que estão insatisfeitos.

Estado: Diante do preço elevado do passaporte e dos salários baixos dos cubanos, a medida terá algum efeito prático?

Jaime Suchlicki: Os brancos com família nos Estados Unidos conseguirão tirar o passaporte e viajar porque possuem mais dinheiro. Mas os negros e os mulatos, que não possuem tantos parentes aqui (na Flórida), dificilmente conseguirão sair. Depois, há a questão do visto. Mesmo que realmente obtenham um passaporte, precisarão de um visto de algum país posteriormente.

Estado: A maioria deve ir para os Estados Unidos?

Jaime Suchlicki: Os americanos já possuem um acordo com Cuba para fornecer 20 mil vistos por ano e não deve haver alteração. Portanto, a alternativa seria tentar o visto para algum país como Brasil, Venezuela, Colômbia, México ou Argentina. Mas esses governos estarão dispostos a receber cubanos, sabendo que a maior parte deles ficará em seus territórios definitivamente? Será complicado e, mesmo que consigam, os cubanos terão o objetivo de vir para os Estados Unidos, pois é aqui que estão as famílias e as comunidades cubanas.

Estado: Ativistas políticos conseguirão viajar?

Jaime Suchlicki: Primeiro, temos de lembrar que médicos, militares, cientistas e outras categorias (atletas) não poderão sair normalmente, como os demais cidadãos, segundo a determinação do regime (de acordo com o regime para evitar a "fuga de cérebros"). Os ativistas, provavelmente, tentarão tirar o passaporte e verão seus pedidos adiados, com os funcionários do governo dizendo para eles irem buscar "no mês que vem". Mas esse "mês que vem" nunca chegará.

Estado: A decisão do governo cubano deve alterar o cenário eleitoral cubano-americano na Flórida na disputa presidencial em novembro?

Jaime Suchlicki: Não acredito que tenha um efeito no resultado. Não é, em termos eleitorais, muito importante. Essa iniciativa é distinta da de Mariel (episódio em 1980 quando dezenas de milhares de cubanos tentaram deixar o país depois de o regime ter liberado a população para ir embora, se quisesse).

Tudo o que sabemos sobre:
Reformas em CubaHavanadissidentes

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.