Havana sem gladíolos

O domingo amanheceu outonal e chuvoso. Uma mulher caminhava de um lugar para outro em busca de flores, sem conseguir encontrar as que queria. Desde a tarde do dia 14, dezenas de cubanos apressaram-se para comprar tantas palmas que as floriculturas não davam conta.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h01

Laura Pollán, a mulher que tomou conta do imaginário popular vestida de branco e com um gladíolo nas mãos, acabara de morrer, portanto era o momento de oferecer-lhe o próprio símbolo. Na falta dele, amigos e conhecidos dedicaram a ela lírios e jasmins e, com eles nas mãos, foram até a humilde casa da Rua Neptuno, 963. Muitas das mulheres que todos os domingos acompanhavam Laura pela Quinta Avenida estavam ali.

A dor tem a capacidade de dissipar rivalidades e aplacar diferenças. A morte de Laura atuou como um elemento aglutinador, ao reunir o amplo espectro da oposição, jornalistas independentes, blogueiros alternativos e ativistas.

A professora, que morreu aos 63 anos, começou a usar seu dom de unir as pessoas após a madrugada de 2003, quando batidas fortes em sua porta anunciaram que alguma coisa mudaria sua existência. Seu marido, Héctor Maseda, foi detido e condenado a 20 anos de prisão, acusado de atentar contra a segurança nacional. Seu crime: pensar numa Cuba diferente, desafiar politicamente as autoridades e expor por escrito suas opiniões.

Setenta e cinco opositores foram processados no triste mês de março que ficou para sempre em nossa história como a Primavera Negra.

A lógica machista indicava que as mulheres dos dissidentes presos se recolheriam chorando sua dor. O governo cubano esperava que o golpe desferido contra a oposição dissuadiria outros indivíduos inquietos de se juntar às fileiras dos inconformados. Acreditava também que aquelas mulheres reprimiriam os protestos esperando que seu silêncio ajudasse mais seus entes queridos do que a denúncia do horror. Mas como todo cálculo político feito pela arrogância do poder este também foi errado. Se algum fenômeno cívico foi difamado à exaustão nos meios cubanos foi o das Damas de Branco.

Com fortes dores articulares, falta de ar e fraqueza, Laura foi levada em estado grave para um dos hospitais de Havana onde sobra talento médico, mas faltam iluminação e antissépticos. Diante da gravidade da situação, sua família foi consultada se ela poderia ser transferida para uma luxuosa clínica destinada a militares. Mas Laura avisara antes de perder a consciência: "Fico no hospital do povo". E foi lá que ela morreu, de dengue hemorrágica.

O Granma e os outros jornais do país ainda guardam silêncio sobre a morte da reconhecida mulher. A reação pode estar ligada à falta de grandeza de um governo que não sabe expressar suas condolências por um adversário. Mas tanta reserva decorre também do medo que tinham da pequena professora, temor que aumenta quando a veem convertida em símbolo. A líder das Damas de Branco morreu e ninguém na ilha poderá levar um gladíolo nas mãos sem pensar em Laura Pollán. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008 RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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