Havana Velha resiste

Há quem tema que todo o charme da cidade, impedida de se modernizar por meio século de socialismo, seja perdido a partir do momento que o capitalismo chegar

É DIRETOR EM CINGAPURA DO CENTER FOR HUMANITARIAN DIALOGUE , MICHAEL , VATIKIOTIS, THE NEW YORK TIMES, É DIRETOR EM CINGAPURA DO CENTER FOR HUMANITARIAN DIALOGUE , MICHAEL , VATIKIOTIS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h03

Num pequeno parque em Havana Velha, fiquei surpreso ao passar por um busto de bronze de Hans Christian Andersen. Havana é uma cidade de surpresas, a maior das quais é o milagre de sua preservação. Não se trata apenas de que meio século de revolução socialista impediu a modernização; trata-se de que o povo cubano tem também um sentido duradouro de história e um profundo orgulho cultural.

Falando como um inocente no contexto latino, isso não é pouca coisa.

Havana Velha é uma relíquia viva. Suas vielas estreitas com mansões e cortiços de estuque cujas portas com frequência se abrem para pátios internos pintados em tons suaves, evocam uma era de alta civilização europeia que desapareceu sob o massacre de aço e vidro nos centros metropolitanos modernos da Europa. Em boa parte da Ásia onde houve influência similar moldando a vida metropolitana moderna, uma combinação de umidade e progresso incansável enterram os restos do planejamento urbano colonial. O paralelo mais próximo é Hanói Velha com suas mansões ocres, mas já está quase extinta.

Longe da intensa promoção turística de rum e charutos, do repertório incansável, mas bastante limitado, de Son e Salsa, e do cafona itinerário Hemingway, há uma civilidade calma em Havana que parece conter muitas lições para a vida urbana moderna. A vida na rua cubana permite pouca privacidade. No nível térreo, as pessoas espiam as salas de estar da frente das casas e entabulam conversas com famílias, ou gritam para vizinhos perigosamente penduradas sobre as grades das varandas. Algumas dessas casas alugam quartos para turistas.

Os cínicos dirão que a preservação da cidade velha se deve à mão pesada do Estado socialista. Eles assinalam o monopólio do governo sobre a receita do turismo que põe os pesos conversíveis gastos nos bares e cafés da Rua Obispo nos cofres estatais enquanto os cubanos comuns lutam para comprar ovos e legumes frescos, para não falar de carne, nas mal servidas lojas e mercados do governo. É difícil ignorar as dificuldades que os cubanos comuns enfrentam, mas também é fácil esquecer que o serviço básico é gratuito.

Outros temem que todo o charme da cidade desapareça sob o massacre do capitalismo moderno quando este chegar. E ele está chegando.

Recentemente, os cubanos receberam o direito de comprar e vender imóveis pela primeira vez desde 1959. A moeda conversível pôs dinheiro nos bolsos de algumas pessoas e marcas de luxo globais estabeleceram cabeças de ponte em Havana Velha. Eu sou bem mais otimista. Os cubanos parecem considerar Havana uma herança valiosa, um símbolo duradouro de uma civilização que é orgulhosamente latina e americana, e antecede a Fidel e a Che. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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