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'Haverá muito mais autoritarismo na China', afirma especialista

Professor da Universidade Tsinghua diz que novo líder da China é favorável a reformas, mas não deve tomar decisões concretas

Entrevista com

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2012 | 02h05

PEQUIM - O regime chinês se tornará mais autoritário à medida que aumente o antagonismo entre governo e setores da sociedade que defendem mais transparência, diz Wu Qiang, professor de ciência política da Universidade Tsinghua, uma das mais influentes da China e onde se formou o presidente Hu Jintao. Segundo ele, o novo líder do Partido Comunista, Xi Jinping, é a favor de reformas, mas não tomará ações concretas. "O partido não quer trilhar um caminho alternativo", disse Wu ao Estado.

Wu viveu oito anos na Alemanha, onde escreveu sua tese sobre movimentos sociais na China após 1989. Ele lembra que Xi é o primeiro líder escolhido em uma negociação interna. "Cada facção do partido o aceitou, em uma espécie de limitada democracia interna." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Estado: O que o sr. espera da transição de poder na China?

Wu Qiang: Nós podemos ver dois mundos paralelos. Um é o da sociedade civil emergente, das novas tecnologias, das novas indústrias e dos novos espaços urbanos. Esse mundo muda todos os dias e cresce em uma velocidade inimaginável há dez anos. Outro é o mundo que vemos no congresso do Partido Comunista, que é o mundo conservador do partido-Estado, que não muda. A China está experimentando uma mistura estranha desses dois mundos e ninguém sabe qual deles mudará o outro. No Weibo (versão chinesa do Twitter), as pessoas estão criticando o congresso do partido, falando sobre o futuro das reformas políticas e do desapontamento em relação ao partido.

Estado: Quais os desafios da China?

Wu Qiang: O modelo autoritário vai sobreviver, sem mudar suas instituições básicas no futuro próximo. Ao mesmo tempo, a nova sociedade e o novo movimento social mudarão a natureza do autoritarismo. O autoritarismo está fomentando a oposição interna e, à medida que a internet sobrevive, esse movimento não pode ser totalmente suprimido pelo governo. A relação entre esses dois mundos se tornará mais antagônica e poderá mudar para uma direção radical. Meus estudos mostram que alguns ativistas estão se tornando mais radicais e antagonistas em relação ao partido-Estado.

Estado: A classe média é a maior beneficiária do crescimento da China. Existe motivação para reivindicar democracia e reformas?

Wu Qiang: A nova classe média é sócia do partido-Estado em determinados aspectos. Eles querem algumas reformas nas instituições, mas não uma revolução. O mais importante para a classe média é o estado de direito e a transparência do governo. Mas, nesses pontos, houve retrocesso na última década. Esse é o principal aspecto que desapontou a classe média nos últimos dez anos e no relatório que Hu Jintao apresentou ao congresso do partido. Esse desapontamento pode levar a posições mais radicais. Acredito que Ai Wei Wei (artista dissidente) representa essa transição da classe média na China. Isso levará ao agravamento do caráter autoritário do regime. Haverá muito mais autoritarismo e não abertura. O partido não quer trilhar um caminho alternativo. Esse é o mais forte sinal do relatório apresentado por Hu. O espaço deixado para reformas se reduziu e o antagonismo entre a nova sociedade e o partido se intensificará.

Estado: Mas haverá uma nova liderança com Xi Jinping. Eles não podem ser diferentes?

Wu Qiang: Se eles puderem adotar algumas reformas políticas essenciais, poderão reduzir a tensão entre a classe média e a classe governante. Mas eu duvido que façam isso. O relatório de Hu regulou a direção futura de Xi e deixou um espaço muito limitado para mudanças. É claro que Xi tem uma nova base de legitimidade. Hu foi escolhido por Deng Xiaoping, enquanto a legitimidade de Xi tem como base uma ampla negociação dentro do partido. Cada facção o aceitou, em uma espécie de limitada democracia interna. Além disso, Xi pode combinar os três postos mais importantes do país em um: secretário-geral do partido, presidente da China e comandante das Forças Armadas. Isso reforça sua autoridade pessoal. Quando Hu assumiu, em 2002, Jiang Zemin manteve sua posição de chefe da Comissão Central Militar por dois anos, até 2004. Acredito que Xi dará declarações em favor de reformas, mas não adotará ações concretas. O autoritarismo ficará mais poderoso.

Estado: O sr. está em uma das mais importantes universidades da China. Que liberdade o sr. tem para expressar suas opiniões?

Wu Qiang: Minha liberdade é falar com os jornalistas estrangeiros em Pequim. Só isso. O espaço para publicar meus trabalhos é mínimo. Escrevi um livro sobre movimentos sociais no Sudeste Asiático e tento publicá-lo há dois anos, sem sucesso. Na sala de aula, sou cauteloso e me censuro. Tenho cuidado em escolher minhas palavras. Claro que falo sobre a situação política da China, mas tenho de me autocensurar. Em todas as classes há duas câmeras, uma na frente e outra no fundo. Você pode imaginar como é ser vigiado o tempo todo.

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