Cláudia Trevisan/ESTADAO
Cláudia Trevisan/ESTADAO

‘Haverá sanção ao petróleo, se necessário’

Diretor para América do Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca afirma que Washington tenta evitar que punições afetem população, mas não descarta medidas contra o setor do petróleo

Entrevista com

Fernando Cutz

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 05h00

Os Estados Unidos estão prontos para impor novas sanções contra integrantes do governo da Venezuela e não descartam a possibilidade de adotar medidas que afetem o setores de petróleo e financeiro, disse ao Estado o diretor para América do Sul do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Fernando Cutz. “O presidente Trump cumpriu sua palavra de ter uma reação forte. Mas não é o final”, afirmou, em referência ao congelamento de bens que o presidente Nicolás Maduro eventualmente tenha nos EUA. Cutz nasceu no Rio de Janeiro e se mudou com os pais para Miami quando tinha 6 anos. Aos 12, se naturalizou americano. Apesar de ser responsável por toda a América do Sul, a Venezuela monopolizou seu tempo nas últimas semanas. A seguir, trechos da entrevista ao Estado:

Qual o próximo passo dos EUA em relação à Venezuela?

O que o presidente (Donald) Trump pediu para mim e meu time foi um mapa de escalada de sanções. Dependendo das ações de Maduro, nós estamos prontos para agir e escalar no que for necessário.

Quais são essas opções?

Não posso dizer. Mas nosso objetivo é ter o máximo de impacto sobre o governo da Venezuela e sobre Maduro pessoalmente e mínimo o impacto possível sobre o povo da Venezuela e sobre a economia e a população americanas. Vários estudos foram feitos nas últimas semanas para tentarmos calibrar e entender as consequências das nossas decisões. 

Sanções contra o setor de petróleo continuam sobre a mesa? Dá para impor sanções ao setor de petróleo sem prejudicar a população?

Nossa principal preocupação é o bem-estar dos venezuelanos. Mas dependendo das decisões que Maduro tomar, nós seremos forçados a agir de maneira mais forte. O povo da Venezuela já está sofrendo muito por questões humanitárias e a falta de democracia. Se Maduro mantiver a repressão, em um cenário de escassez de comida e de remédios, a crise vai se agravar ainda mais.  Espero que esse momento nunca chegue, mas a decisão que teremos de tomar é qual o ponto em que o benefício para a população da Venezuela supera os efeitos de uma sanção desse tipo, cujas consequências para o governo do país podem ser drásticas.

Na semana passada, a Casa Branca disse que adotaria sanções econômicas fortes caso a votação de domingo ocorresse, mas acabou anunciando só sanções individuais contra Maduro. Por quê?

Nós prometemos sanções fortes e rápidas. No dia seguinte à votação nós sancionamos o Maduro. Muita gente especulou que iríamos para o setor de petróleo. Esse setor e o financeiro são opções às quais chegaremos se for necessário. Mas não quero minimizar a decisão de ontem. O presidente Trump cumpriu sua palavra de ter uma reação forte. Mas não é o final. Se Maduro continuar a forçar nossa mão com as ações que toma contra o próprio povo, nós vamos continuar a escalar (as sanções). 

Se Maduro não tiver ativos sob jurisdição dos EUA, qual é o impacto das sanções anunciadas na segunda-feira?

Há um impacto simbólico forte, dizer que agora ele é um ditador. O governo americano não faz isso levianamente. Maduro entrou para um clube exclusivo de quatro membros, no qual já estavam Bashar Assad, da Síria, Kim Jong-un, da Coreia do Norte, e (Robert) Mugabe, no Zimbábue. Maduro não pode mais ter bens nos Estados Unidos e não pode ter dinheiro que passe pelo sistema financeiro americano. Ele está proibido de vir para os Estados Unidos. São medidas de impacto para o líder de um país. É mais uma ação forte que nós tomamos, mas não é a última. 

Qual é a maior preocupação os EUA?

A democracia está sendo destruída no país. Se você cria instabilidade, elimina a democracia, vira um ditador, você cria uma situação que pode afetar o hemisfério todo. Nós estamos muitos preocupados com a Colômbia e o Brasil, que são as primeiras fronteiras para a imigração (venezuelana). A qualquer momento, isso pode virar um problema sério.

O que levaria a uma escalada de sanções?

Nós temos flexibilidade para tomar decisões de acordo com o que Maduro fizer. Claramente, não gostaríamos que ele continuasse nessa direção de eliminar a democracia, contrariar o que a população quer, ignorar necessidades humanitárias básicas dos venezuelanos e enriquecer a ele e seu grupo. A julgar pelos comentários que Maduro fez nos últimos dias, em vez de tentar acalmar a situação, ele a está agravando. Se ele dissolver a Assembleia Nacional, se prender membros da oposição de maneira indiscriminada, se a repressão aumentar, isso é algo que o povo da Venezuela não vai aceitar e os Estados Unidos também não. 

Na madrugada de ontem, foram presos dois líderes opositores, Antonio Ledezma e Leopoldo López. Isso 

justificaria uma escalada das sanções?

Isso é muito sério e nós condenamos. Mas não queremos responder a cada coisa que eles façam. Há uma linha clara do que nós queremos: que eles voltem a respeitar a democracia, libertem todos os presos políticos e respeitem a Constituição. Só isso. O presidente tem um menu de opções que ele pode escolher entre elas quando quiser.

 

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