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Hegemonia global

Donald Trump continua minando esforços de governadores para conter o vírus

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2020 | 05h00

No livro que lançou na semana passada, John Bolton, chefe do Conselho de Segurança Nacional durante 17 meses no governo de Donald Trump, confirma que o presidente ignorou inicialmente a ameaça do coronavírus não só para preservar a economia, mas também para não desagradar o ditador chinês, Xi Jinping. A motivação, no fundo, é a mesma: manter o acordo de dezembro, que previa a compra adicional de US$ 200 bilhões em produtos americanos em dois anos.

Digo “confirma” porque a correlação já era clara, observando o comportamento público do presidente no desenrolar dos fatos. Bolton traz o testemunho dos bastidores. E que testemunho! Ele conta que, na reunião do G-20, no Japão, em junho do ano passado, Xi reclamou das tendências antichinesas dos democratas, e Trump aproveitou para “suplicar” que ele comprasse mais soja e trigo dos EUA, para ajudá-lo a ter mais votos em Estados agrícolas do Meio-Oeste e ajudar na sua reeleição. E ainda apoiou a iniciativa de Xi de enviar centenas de milhares de muçulmanos uigures para campos de concentração.

Mesmo depois de fechar as fronteiras para viajantes da China, em 31 de janeiro, Trump continuou bajulando Xi, na esperança de manter o acordo de dezembro. Entre janeiro e março, Trump elogiou em público mais de dez vezes a forma como Xi combatia o coronavírus.

No dia 27 de março, Trump tuitou: “Acabo de concluir uma conversa muito boa com o presidente Xi, da China. Discutimos em grande detalhe o coronavírus que está devastando grandes partes do nosso planeta. A China passou por muito e desenvolveu forte compreensão do vírus. Estamos trabalhando estreitamente juntos. Muito respeito!” Enquanto isso, o serviço secreto americano tentava advertir o presidente da ameaça representada pelo vírus. Ele via nisso uma ameaça para sua reeleição. Preferiu não fechar a economia e pagar para ver.

No dia 18 de abril, quando os casos confirmados nos EUA somavam 732.197 e havia 38.664 mortes, Trump mudou radicalmente de atitude: “Poderia ter sido parado na China antes de começar e não foi, e o mundo todo está sofrendo por isso. Se eles tiverem sido conscientemente responsáveis, deve haver consequências.”

Xi, em contraste, encarou o vírus com seriedade desde o início. No dia 3 de fevereiro, quando a China registrava 20.438 casos e 425 mortes, ele declarou ao Comitê Permanente do Politburo do Partido Comunista: “É um teste para o sistema da China. Qualquer um que não desempenhar suas funções será punido de acordo com a disciplina e a lei”. Não é exatamente o tipo de advertência que um funcionário ignora na China. Seguiram-se medidas drásticas para conter a circulação da população, testar e rastrear contatos com pessoas contaminadas.

Os EUA representam 4% da população do mundo e têm hoje 25% dos casos confirmados e das mortes. Dos 50 Estados americanos, 30 registraram mais casos novos na semana que passou do que na anterior. Ou seja, essa fatia ainda vai crescer. Mesmo assim, Trump continua minando os esforços dos governadores para conter a proliferação.

A China praticamente pôs fim a sua epidemia. Ela representa 18% da população mundial e menos de 1% dos casos e das mortes. A título de curiosidade: o Brasil tem menos de 3% da população do mundo e 12% dos casos e das mortes.

Não se trata aqui de defender a ditadura chinesa. Países democráticos conseguiram resultados semelhantes ou até melhores: Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Áustria, Portugal, Canadá e Paraguai, para citar alguns. Minha questão aqui é outra. Em janeiro, a pandemia parecia um golpe no prestígio da China. Hoje, é um golpe no prestígio dos EUA. Xi sai fortalecido. Trump, enfraquecido. O “sistema da China”, de um ponto de vista pragmático, não ético ou democrático, passou no teste. O que isso nos diz sobre a disputa pela hegemonia global?

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