Hegemonia ou supremacia americana?

Embora a era do domínio dos Estados Unidos não tenha acabado, ela deve mudar para garantir a segurança e a prosperidade globais

JOSEPH NYE/ PROJECT SYNDICATE , O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h00

Nenhum país na história moderna possuiu tanto poder militar global quanto os EUA. No entanto, alguns analistas agora argumentam que os americanos estão seguindo as pegadas dos britânicos, a última potência hegemônica a declinar. Esta analogia histórica, embora cada vez mais popular, é equivocada.

A Grã-Bretanha nunca foi tão dominante quanto os EUA são hoje. É fato que ela teve uma força naval igual em tamanho às duas armadas seguintes combinadas, e seu império, no qual o sol nunca se punha, reinava sobre um quarto da humanidade. No entanto, há grandes diferenças nos recursos de poder relativos da Grã-Bretanha imperial e dos EUA contemporâneos.

Na eclosão da 1.ª Guerra, a Grã-Bretanha ocupava o quarto lugar entre as grandes potências em termos de efetivos militares, quarta em termos de PIB e terceira em gastos militares. O Império Britânico era governado, em grande parte, com base em tropas locais. Dos 8,6 milhões de soldados britânicos na 1.ª Guerra, quase um terço vinham das possessões de além-mar do império. Isso tornou cada vez mais difícil para o governo em Londres declarar guerra em defesa de seu império quando os sentimentos nacionalistas começaram a se intensificar.

Na 2.ª Guerra, proteger o império havia se tonado mais um fardo do que um ativo. O fato de a Grã-Bretanha estar situada tão perto de potências como Alemanha e Rússia tornava as coisas ainda mais desafiadoras, A despeito de todo o falatório sobre um "império americano", o fato é que os EUA não possuem colônias que precisem ser administradas. E, com isso, têm mais liberdade para manobrar do que a Grã-Bretanha dispunha. Rodeados por países não ameaçadores e dois oceanos, eles têm mais facilidade de se proteger.

Isso nos leva a outro problema com a analogia da hegemonia global: a confusão sobre o que realmente significa "hegemonia". Alguns observadores associam o conceito ao imperialismo. No entanto, os EUA são uma clara evidência de que uma potência hegemônica não precisa ter um império formal. Outros definem hegemonia como a capacidade de estabelecer as regras do sistema internacional. Mas não está claro quanta influência sobre este processo a potência hegemônica precisa ter em relação a outras potências.

Outros ainda consideram hegemonia um sinônimo de controle da maioria dos recursos de poder. Por essa definição, porém, a Grã-Bretanha do século 19 - que no auge de seu poder, em 1870, ocupava o terceiro lugar em PIB (atrás de EUA e Rússia) e terceiro em gastos militares (atrás de Rússia e França) - não poderia ser considerada hegemônica, a despeito de seu predomínio naval. Da mesma forma, os que falam da hegemonia americana após 1945 não notam que a União Soviética contrabalançou o poder militar americano por mais de quatro décadas. Embora os EUA tivessem uma influência econômica desproporcional, sua margem de manobra política e militar era limitada pelo poder soviético.

Alguns analistas descrevem o período pós-1945 como uma ordem hierárquica liderada pelos EUA com características liberais em que Washington fornecia bens públicos enquanto operava dentro de um sistema frouxo de regras e instituições multilaterais que dava voz a Estados mais fracos. Eles assinalam que pode ser racional para muitos países preservar essa estrutura institucional, mesmo que os recursos do poder americano diminuam. Neste sentido, a ordem internacional liderada pelos EUA poderia sobreviver à supremacia americana em recursos de poder, embora muitos outros argumentem que o surgimento de novas potências seja um presságio do fim dessa ordem.

No entanto, quando se trata da era de suposta hegemonia americana, sempre houve muita ficção misturada aos fatos. Ela era menos uma ordem global do que um grupo de países da mesma opinião, em grande parte das Américas e da Europa Ocidental, que compreendia menos da metade do mundo. Seus efeitos nos países não membros - entre os quais potências significativas como China, Índia, Indonésia e o bloco soviético - nem sempre foram benignos. Dito isso, a posição dos EUA no mundo poderia ser mais precisamente chamada de "meia hegemonia".

Os EUA, certamente, mantiveram seu predomínio econômico após 1945: a devastação da 2ª Guerra em tantos países significou que os EUA produziram quase metade do PIB global. Esta situação durou até 1970, quando a fatia dos EUA no PIB global caiu para seu nível de um quarto de antes da guerra. Mas, do ponto de vista político ou militar, o mundo era bipolar, com a União Soviética contrabalançando o poder dos EUA. Aliás, durante esse período, os EUA, com frequência, não puderam defender seus interesses. A União Soviética obteve armas nucleares, ocorreram tomadas de poder comunistas na China, em Cuba e na metade do Vietnã. A Guerra da Coreia terminou em um impasse e revoltas na Hungria e na Checoslováquia foram reprimidas.

Mudança. Contra esse pano de fundo, "supremacia" parece uma descrição mais precisa da participação desproporcional (e mensurável) dos três tipos de recursos de poder de um país: militar, econômico e brando. A questão agora é se a era da supremacia americana está chegando ao fim.

Dada a imprevisibilidade dos desdobramentos globais, é certamente impossível responder a essa questão definitivamente. A ascensão de forças transnacionais e atores não estatais, para não mencionar potências emergentes como a China, sugere que há grandes transformações no horizonte. No entanto, ainda há razão para acreditar que, ao menos na primeira metade deste século, os EUA conservarão sua supremacia em recursos de poder e continuarão a jogar o papel principal no equilíbrio mundial de poder.

Em suma, embora a era da supremacia americana não tenha acabado, ela deve mudar de maneira importante. Resta ver se essas mudanças aumentarão ou não a segurança e a prosperidade globais. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE HARVARD

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