Herança econômica mistura crescimento e inflação

Kirchner assumiu país em sua pior crise, garantiu aumento na produção, mas mascarou subida de preços

Marina Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Néstor Kirchner assumiu o poder após o colapso econômico e político que ocorreu na Argentina de 2001 e 2002. Durante seus quatro anos de mandato (2003 a 2007), o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 44%. Com a expansão da economia anual média de mais de 9%, partindo de uma base de produção muito baixa, Kirchner marcou um recorde para a história argentina. Por isso, defensores e detratores de sua política econômica o consideravam um "piloto de tormenta".

Os defensores de Kirchner afirmam que a decisão dele de manter a moeda desvalorizada foi um impulso para as exportações, que aproveitaram o salto do preço das commodities. A medida reduziu as importações e promoveu sua substituição por produtos locais, em meio ao estímulo ao consumo e o boom de setores como agronegócio e construção civil. Como crítica, não houve grandes investimentos. Somente ocupação da capacidade ociosa, como destaca o economista Roberto Chacanosky.

Entre os feitos de seu governo, a reestruturação da dívida de mais de US$ 100 bilhões em default foi um dos principais destaques. Negociada pelo ex-ministro de Economia Roberto Lavagna, a reestruturação foi feita com um corte de 65% e aceitação por parte dos credores da ordem de 74%. A dívida, que representava 166% do PIB, baixou para cerca de 70%. O pagamento da dívida que o Estado mantinha com o FMI, de US$ 9,5 bilhões, também é destacado como um êxito político e econômico de Kirchner.

O projeto de Kirchner manteve elevados os superávits comercial e fiscal. A compra de divisas e o aumento do gasto público provocaram a expansão da base monetária. A inflação foi a consequência imediata.

As críticas mais duras contra o ex-presidente apareceram em janeiro de 2007, quando as estatísticas oficiais começaram a se distanciar da realidade local. A inflação oficial passou a contar somente a metade do valor estimado pelo mercado e as dúvidas afetaram também os índices de pobreza e de desemprego. Kirchner e Cristina, sua sucessora, tentaram frear a inflação com controles de preço e maquiagem dos números. Economistas como Nouriel Roubini alertam que a inflação de 2010 da Argentina será superior a 30%.

O economista José Luis Espert afirma que a política dos Kirchners provocou a fuga de capitais, acentuada com medidas mais duras, como a privatização dos fundos de pensão e os conflitos com os produtores rurais e empresários.

As políticas de regulação adotadas pelo casal atenderam metas de curto prazo, mas provocaram estragos estruturais que começaram a ser evidenciados com a crise no setor de carne. Um balanço dos principais segmentos atormentados com a intervenção da administração federal, como lácteos, eletricidade, agricultura e combustíveis, apresenta resultados negativos. / AGÊNCIA ESTADO

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