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Gilles Lapouge
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Herdeiros de Breivik

O Departamento de Corrèze, na França, fica no fim do mundo, com seus bosques, montanhas, carneiros, solidão e camponeses arcaicos. E muita beleza. Ali, numa aldeia de 700 habitantes, vivem há um ano um norueguês, sua jovem esposa francesa e os filhos. Ele é Varg Vikernes (Varg é um pseudônimo que significa "lobo"), um músico conhecido na Noruega e em outros países.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2013 | 02h05

Varg foi preso pela polícia há uma semana por formação de quadrilha ligada a um atentado terrorista. Ele planejava um atentado? Não se sabe, mas sua esposa francesa comprou quatro espingardas 22. É claro que ela tinha todo o direito de fazer isso, mas quatro?

Varg foi libertado apenas dois dias depois por falta de provas. Ele vai responder apenas por incitação ao ódio na internet, embora seja um personagem notório e bastante perigoso. Antigamente, ele gostava de pôr fogo em igrejas.

Em 1993, o norueguês matou a facadas um amigo, seu guitarrista, crime pelo qual foi condenado a 15 anos de cadeia. Ao sair da prisão, na Noruega e depois na França, multiplicou as profecias extremistas, racistas e neonazistas.

Varg está convencido que é um viking. Quando adolescente, leu e adorou o magnífico livro de Tolkien, O Senhor dos Anéis, que lhe inspirou a nostálgica visão de uma Idade Média romântica, sob a tutela dos deuses pagãos escandinavos, um mundo nobre e brutal, ávido de pureza racial, lendas, brumas, sangue e cheio de florestas.

Há dois anos, no dia 22 de julho de 2011, ele acompanhou a epopeia insana de outro norueguês, Anders Breivik, igualmente obcecado pelos antigos germânicos, por Hitler e convencido de que a imigração e o socialismo iriam escurecer o sangue tão rubro, tão puro, tão belo dos noruegueses, a ponto de querer conjurar esses terríveis perigos assassinando, numa ilha da Noruega, 69 jovens socialistas. Oito pessoas morreram com bombas que ele colocou horas antes em Oslo.

Racismo. Breivik conhecia o músico norueguês, a quem, aliás, havia oferecido um dos 500 exemplares do livro no qual expunha sua visão de mundo e o programa dos seus crimes. Portanto, é natural definir o músico Varg como um discípulo do assassino em série Anders Breivik.

No entanto, é importante destacar que existem nuances. Varg, certamente, gosta de Breivik, mas não hesita em criticá-lo. Quais são os erros de Breivik? Em primeiro lugar, "ele matou em poucos minutos mais noruegueses do que os muçulmanos mataram em 40 anos de imigração".

Mas isso não é tudo. Breivik tem outro defeito. É franco-maçom e sionista. Finalmente, Varg recrimina Breivik pelo fato de ele "defender o Ocidente cristão". Para ele, é preciso optar: ou o bem pagão ou bem cristão. Ele próprio já fez a sua escolha pelo paganismo. É por isso que, em certa época, ele gostava muito de pôr fogo nas igrejas norueguesas.

Por isso, Varg deve ser classificado como um fanático adepto do nazismo e de Adolf Hitler. O que tirar dessa desordem? Uma única ideia: o mundo ficou maculado em razão dos sangues impuros que correm em três quartos do planeta e estão prestes a corromper o sangue norueguês, virgem, inalterável, magnífico. É preciso voltar ao racismo absoluto, à raça branca e mais nenhuma outra. Caso os brancos não se revoltarem, segundo os extremistas, "assistirão a um gigantesco massacre na Europa". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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