Herdeiros do jornal argentino 'Clarín' farão novo exame de DNA

Filhos adotivos da dona do diário aceitam comparar teste com dados de desaparecidos na ditadura.

Marcia Carmo, BBC

17 de junho de 2011 | 17h21

Felipe e Marcela, filhos adotivos da empresária Ernestina Herrera de Noble, dona do jornal Clarín, vão realizar novo exame de sangue para que o resultado seja comparado com o DNA de todos os familiares das vítimas do regime militar da Argentina (1976-1983), segundo informou nesta sexta-feira o advogado dos herdeiros da empresária.

"Eles decidiram se apresentar espontaneamente para um novo exame de sangue e aceitaram que a comparação seja feita com todo o banco de dados do Banco Nacional de Dados Genéticos", disse o advogado Horácio Silva.

O banco reúne principalmente amostras de pessoas ligadas aos sequestrados, mortos e desaparecidos durante o regime militar.

A decisão de Felipe e Marcela foi anunciada 15 dias depois que a Justiça determinou o teste "obrigatório" de sangue dos herdeiros do grupo Clarín, o principal da Argentina, atendendo pedido da entidade de direitos humanos Avós da Praça de Maio.

Resultado negativo

Marcela e Felipe foram adotados pela empresária há cerca de 35 anos e já fizeram exames de sangue, com resultado negativo, comparando seus dados genéticos com os de uma família que procura netos sequestrados ainda bebês durante o regime militar.

No entanto, as Avós da Praça de Maio pedem que novo exame seja feito, para fazer a comparação com todos os dados reunidos no banco de DNA.

"Comparar com um só período ou uma só família e dar (à empresária) um privilégio que ninguém teve. Estamos falando de dois jovens que foram sequestrados ainda bebês e que, como todos os demais, devem ter o direito de conhecer sua verdadeira identidade", disse a presidente da entidade, Estela de Carlotto.

Segundo ela, as famílias das vitimas da ditadura esperam "por este momento há quase dez anos".

Escolha dos herdeiros

Segundo o advogado dos herdeiros, eles ainda teriam o direito a recorrer da sentença na Suprema Corte de Justiça, que os obrigaria a novo exame.

No entanto, ambos optaram por "esclarecer tudo o quanto antes", segundo Horácio Silva.

"Marcela e Felipe acham que o direito à identidade é uma decisão pessoal, mas diante desta situação eles resolveram tomar esta iniciativa", disse.

Em seu site, o jornal Clarín publicou nesta sexta-feira uma reportagem em relação ao caso com o título: "Oito anos, três exames de sangue e uma perseguição sem antecedentes".

Já o site da agência oficial de noticias, Telam, destacou: "Fontes ligadas ao caso acham suspeita a guinada na decisão dos (irmãos Felipe e Marcela) Noble Herrera de comparar o sangue com todo o banco de dados".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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