Carly Zavala/The New York Times
Carly Zavala/The New York Times

Herói de guerra modernizou Natal como um dos pais da árvore artificial

Ex-piloto judeu que combateu nazistas conquistou seu lugar na história com um legado duplo 

Laurie Gwen Shapiro / The New York Times , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2021 | 05h00

O B-17 que Si Spiegel pilotava tinha perdido dois de seus quatro motores para o fogo inimigo, e quando ele olhou para a paisagem arruinada, pensou só uma coisa: "Temos de chegar à frente russa". Como parte do ataque dos Aliados contra Berlim, o bombardeiro que ele pilotava havia soltado sua carga sobre a capital alemã, mas fora atingido pela artilharia antiaérea e quase certamente não conseguiria retornar para a Inglaterra. Nenhum piloto gostaria de ser derrubado sobre a Alemanha nazista, muito menos um piloto judeu. 

Spiegel havia blefado essencialmente durante toda a trajetória que levou o adolescente magrelo do Greenwich Village à cabine de uma aeronave, confiando que aprenderia o que precisasse ao longo do caminho. Desta vez não era diferente. Ele disse aos tripulantes que seu avião dirigia-se para a Polônia e que preparassem os para-quedas, mas que não saltassem até ele dar a ordem. Eles poderiam tentar um pouso de emergência.  

Si Spiegel é um dos últimos pilotos de bombardeiros da 2.ª Guerra ainda entre nós. Ele tinha 95 anos quando conversou com a reportagem (tem 97, agora) e claramente precisava de atenção para suas histórias. Na primeira hora da conversa, ele contou que realizou dezenas de missões cruciais — e perigosas — durante a guerra, que salvou sua tripulação ao conseguir pousar o enorme bombardeiro numa terra devastada e depois ajudou a orquestrar uma audaciosa fuga. 

Mas talvez o mais marcante e improvável sobre Spiegel seja o fato de ele ser mais conhecido como “o rei das árvores de Natal artificiais”.

Si Spiegel nasceu na cidade de Nova York em 1924, o primeiro ano que a parada do Dia de Ação de Graças da loja de departamentos Macy’s foi realizada e o último ano em que a Ellis Island funcionou como posto de imigração. Ele foi menino na Era do Jazz e usou calças curtas, com botões; se recorda de quando fechou a braguilha com um zíper pela primeira vez e quando sua família comprou o primeiro telefone. A família se reunia ao redor do rádio, especialmente em qualquer momento que o presidente discursasse. “Roosevelt”, afirmou ele. “Era nosso herói.” 

Depois de se graduar na escola técnica têxtil, Spiegel foi trabalhar em uma oficina mecânica, mas o que ele queria mesmo era lutar contra os nazistas. Então, sem contar para os pais, ele se alistou no Exército pouco depois de completar 18 anos. Spiegel era um rapaz magrelo, com 1,70 metro e 68 quilos. No treinamento militar, ao perceberem suas habilidades com maquinário, ele foi mandado para a escola de mecânica de aviação de Roosevelt Field, em Long Island. Ele ficou desolado. 

“Como eu poderia combater Hitler com uma chave inglesa?”

Um simpático oficial que trabalhava com Spiegel no hangar sugeriu que ele pegasse um ônibus e fosse até Mitchel Field, a pouco mais de 3 quilômetros de lá. Talvez o aceitassem como piloto. Ao contrário do posto de alistamento da Times Square, o escritório de Mitchel Field sempre estava deserto — e mudou o rumo da vida de Spiegel. 

'Fortaleza Voadora'

Ele foi aceito para o treinamento como piloto, que o levou a Nashville, Tennessee, depois para a Califórnia e, finalmente, já como cadete, a Hobbs, Novo México, onde ele aprenderia a pilotar o B-17, o gigantesco bombardeiro conhecido como "Fortaleza Voadora". 

Hobbs tinha algo que o interessou, uma jovem chamada Frankie Marie Smith. Ela tinha apenas 17 anos e era linda. Quando cursava o ensino médio, Si Spiegel nunca teria pensado que poderia ter alguma chance com uma garota como aquela. Mas agora ele era um galante tenente, que pilotava um B-17.

Semanas depois de se conhecerem, eles se casaram em Lovington, Novo México. “O pai dela insistiu que nos casássemos numa igreja evangélica, a Igreja de Deus”, afirmou Spiegel. Quando se despediu de Frankie Marie, ela lhe deu uma foto sua para levar durante as missões. Então Spiegel deixou o Novo México e foi ao encontro de sua tripulação, uma heterogênea seleção de “indesejados”. 

O grupo foi designado para a Oitava Força Aérea dos EUA, e sua base de operações seria uma cidade inglesa chamada Eye, próxima da costa, cerca de 160 quilômetros a nordeste de Londres.

Baixas significativas

A primeira formação de voo de Spiegel, quando ele tinha 20 anos, foi uma curta missão sobre a Bélgica, num momento em que os alemães batiam em retirada. “Bombardeamos eles para evitar que explodissem uma ponte”, afirmou ele. Foi uma operação que os aviadores chamavam de “entrega do leite” — uma missão pouco perigosa. “Pensei, ‘Nossa, isso é genial!”

Ao longo do ano que se seguiu, Spiegel realizou 35 missões, todas à luz do dia, o que conferia uma vantagem estratégica, mas com frequência resultava em baixas significativas. 

As probabilidades de Spiegel e sua tripulação sobreviverem à guerra eram terríveis. Mais de 50 mil aviadores americanos perderam a vida na 2.ª Guerra, a maioria em B-17s e B-24s. As baixas sofridas pela Oitava Força Aérea representaram 40% de todas as mortes na guerra aérea. 

Nesse estágio do conflito, as forças alemãs haviam recuado para a Alemanha, e os aliados soviéticos e americanos varriam a Polônia. Spiegel havia escutado no rádio que os soviéticos tinham tomado Varsóvia. E pediu para seu navegador, Ray Patulski, indicar a direção da capital polonesa. Spiegel achou que eles conseguiriam se salvar se chegassem à frente russa. Ele disse à sua tripulação para se livrar de tudo que fazia peso no avião enquanto a aeronave perdia altitude: coletes de proteção contra estilhaços, munição-extra e o que mais houvesse.   

O operador de rádio fez contato com a Inglaterra e transmitiu sua situação: nenhum ferido, dois motores avariados, tentativa de pouso em Varsóvia. Os britânicos disseram que notificariam as autoridades americanas. Foi a última vez que ouviu-se falar do avião por semanas.  

Um sinal amistoso

Os nove homens chegaram a Varsóvia às 13h30. A cidade estava destruída. Uma ponte derrubada e retorcida crivava as águas congeladas do Rio Vístula. Procurando por um lugar para pousar, eles rumaram rio abaixo até avistar um avião monomotor que ostentava a estrela vermelha da União Soviética voando a cerca de 60 metros de altitude.

Spiegel baixou o trem de pouso e piscou as luzes de sua aeronave — um sinal amistoso. O piloto soviético balançou as asas para indicar que os americanos o seguissem e os conduziu sobre florestas, numa trajetória de voo traiçoeira para o enorme bombardeiro. Finalmente, Spiegel pousou de barriga sobre um campo de batatas congelado, no vilarejo de Reczyn. Ninguém ficou ferido, mas a aeronave nunca mais pôde voar. 

Os americanos logo foram levados a Plock, uma pequena cidade ao norte do Vístula, onde foram alojados em apartamentos que os russos haviam tomado dos habitantes locais — e foram tratados como heróis pelos soviéticos em razão do bem-sucedido ataque contra Berlim.

Então, eles foram deslocados outra vez, para um aeroporto na cidade polonesa de Torun que o Exército Vermelho havia tomado dos alemães, onde a equipe de Spiegel se encontrou com outra tripulação de americanos, que havia conseguido pousar seu avião naquela região. Os americanos deveriam esperar no aeroporto até que um avião de resgate chegasse— uma semana, no máximo. 

Os americanos não eram prisioneiros, mas não tinham autorização para deixar o local sem aprovação de Moscou — e, de qualquer maneira, não possuíam meios para sair de lá. Spiegel conheceu o outro piloto, um inflamado oficial de Illinois chamado George Ruckman, cuja aeronave havia perdido um motor para o fogo antiaéreo e teve um pneu arrebentado durante a aterrissagem. 

Apesar do confinamento, os americanos podiam em grande parte fazer o que queriam. Ao longo das semanas que se seguiram, as tripulações iam até a beira do Vístula praticar tiro com rifles emprestados pelos russos. Mas a vida em Torun significava, na maior parte do tempo, aguardar. Os americanos desistiram de esperar pelo avião C-47 que os transportaria. O status oficial dos tripulantes do B-17 43-38150 após a Missão Berlim era: desaparecidos em combate.

O outro piloto logo formulou um ousado plano de fuga. Os americanos mandariam um grupo para os destroços do avião de Spiegel, a 112 quilômetros de lá, para retirar um motor e um pneu da aeronave e levar os componentes de volta para Torun. A missão exigiria discrição, coragem e subornos. 

Na manhã do Dia de São Patrício de 1945, os americanos entraram no avião que consertaram de maneira improvisada e começaram a taxiar pelo campo congelado. Um único guarda soviético acenou freneticamente para que os americanos parassem, mas os russos nem se moveram quando o avião atravessou a pista e decolou. “Talvez estivessem aliviados por não ter mais de nós para alimentar”, observou   Spiegel.

Determinados a evitar o fogo antiaéreo alemão contra seu já estropiado avião, os 19 homens rumaram ao sul e, oito horas depois, aterrissaram na base americana em Foggia, Itália.

Spiegel voltou para casa em 31 de agosto de 1945. 

Um recomeço

Frankie Marie Spiegel juntou-se ao marido em Nova York, e o casal passou vários meses na cidade antes de retornar para o Novo México — onde Spiegel arrumou emprego como locutor de anúncios de rádio em um programa de inspiração  country e western (ele adotou o nome de Muddy Boots). Mas o casamento logo azedou. O casal não teve filhos e, após a separação, Spiegel voltou para a Costa Leste.

O Greenwich Village passava por um momento vibrante. Spiegel juntou-se ao Good Neighbor Chorus, de Pete Seeger, depois que a guerra acabou e fez novos amigos. E no verão de 1949, ele foi para Camp Unity, uma colônia de férias esquerdista em Wingdale, Nova York. Horas depois de chegar ao local, ele conheceu uma jovem chamada Motoko Ikeda, uma garota talentosa para as artes que usava tranças em maria-chiquinha — e ficou fascinado com ela. Motoko foi franca a respeito do tempo que passou internada num campo de concentração para pessoas com ascendência japonesa nos EUA, durante a guerra, o que foi esclarecedor.    

Motoko e Spiegel se casaram no Edifício Municipal, na época do feriado de Ação de Graças de 1950, e sua primogênita, Kazuko, nasceu em 1951 — o casal teve outros dois filhos. A família mesclada etnicamente foi aceita sem reservas pelos pais de Spiegel. “Motoko cozinhava comida judaica melhor que a minha mãe. Ela sabia cozinhar em qualquer língua.” 

Ainda excluído da aviação, Spiegel frequentou uma escola profissionalizante e encontrou emprego como operador de máquinas em uma fábrica de escovas, em Mount Vernon, que lhe pagava US$ 1,80 a hora de trabalho. E foi nessa fábrica do Condado de Westchester que sua sorte mudou.

As árvores

Uma estranha mania de design atingiu os EUA no fim dos anos 50: vitrinistas de lojas de departamento usavam milhões de pequenas escovas multicoloridas que, quando expostas nas vitrines dos estabelecimentos, pareciam-se, nas palavras de Spiegel, “miniaturas de ondas em tons pastéis”. A American Brush Machinery, onde Spiegel trabalhava, fabricava as máquinas que faziam essas escovas, e cada equipamento chegava a ser vendido por US$ 12 mil — o dinheiro era bom, mas então a mania acabou.  

Os chefes de Spiegel decidiram dar um novo destino às máquinas que fabricavam: elas poderiam fazer árvores de Natal. As primeiras árvores artificiais produzidas com policloreto de vinila não se pareciam muito aos pinheiros escoceses. Os negócios estavam em baixa.

Os EUA da metade do século passado gostavam de árvores futuristas, feitas de alumínio e iluminadas por círculos cromáticos, e a maioria das pessoas simplesmente não comprava árvores de Natal artificiais. Spiegel, na época já um maquinista experiente, recebeu ordens para fechar a fábrica, mas respondeu que ela poderia fazer muito dinheiro. Um dos chefes achou que ele estava louco, mas o outro deu a ele sua própria divisão da companhia, chamada American Tree and Wreath.

Após expandir as instalações e inaugurar sua própria fábrica de árvores artificiais, Spiegel por fim vendeu a empresa e se aposentou, em 1993, multimilionário. Depois de levar uma vida dedicada ao trabalho, tudo o que ele queria era viajar com Motoko e curtir a vida. Ela havia se tornado uma pintora habilidosa e se inspirava com novos lugares, de Paris ao Japão. Mas depois da súbita morte dela, em 2000, Spiegel se viu fortemente atraído por reuniões de ex-militares e pela companhia de veteranos de guerra. 

Eventualmente, sua filha Kazuko Spiegel lhe apresentou sua terceira mulher,  JoAnn Bastis, uma corretora de imóveis que ela havia conhecido nos círculos sociais de Westchester. Eles ficaram casados poucos anos, até ela morrer, em 2018, mas o casal teve tempo para viajar junto para Europa duas vezes, incluindo uma visita a Reczyn, o pequeno vilarejo onde Spiegel fez o pouso forçado em 1945. 

Spiegel vive atualmente em um luxuoso prédio de apartamentos, com porteiros e vista deslumbrante para o Central Park. Apesar das árvores artificiais descendentes dos modelos de Spiegel serem encontradas em três quartos dos lares de famílias americanas que instalam árvores de Natal, ele não tem nenhuma em seu apartamento. 

Quando questionado sobre qual gostaria que fosse o seu legado — árvores artificiais ou heroísmo militar — ele cerrou os olhos. 

"A guerra", admite ele, "foi provavelmente a parte mais emocionante de sua vida". "Mas quem restou para falar sobre isso? Posso lhe dizer uma coisa. Nós lutamos contra o fascismo. Nós lutamos contra o desejo de Hitler por uma raça pura,” disse ele. 

Spiegel vive cercado por fotos de seus filhos e netos e se preocupa com o aumento do racismo. “Nunca pensei que o fascismo representasse uma ameaça real à democracia do nosso país, até agora”, afirmou ele. “Neste momento, porém, a única coisa que tento fazer é continuar vivo.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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